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A história da Ofélia menos conhecida, em O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro e Cornelia Funke

Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
Ana Julia Carvalho
18 de mar.
5 min de leitura

Talvez você conheça, caro leitor, a Ofélia de Hamlet, a peça de Shakespeare, que muito provavelmente popularizou o nome. Além da própria peça, ela reaparece em obras de arte, filmes, séries, músicas, e em muitos outros cantos da cultura popular. Acredito eu que a tamanha presença dela se deva a percepção de que a mesma não foi muito valorizada pelo autor em sua obra de origem. Ofélia, alvo da paixão do príncipe Hamlet, após recusá-lo, muda de ideia e volta querendo seu amor, mas o homem, dissimulado e dominado pela vontade de vingança como estava, diz não ter sentimentos por ela, como se nunca os tivesse tido. E preenchida pela tristeza, ela finaliza a própria vida, afogando-se em um rio. Uma história trágica e curta que faz de uma pobre menina ingênua, uma vítima. Mas, não é dessa Ofélia que falaremos hoje. Quis explicá-lo para que compreenda a escolha do título deste post. 


Muito mais recente e consequentemente menos famosa que a personagem shakespeariana, temos Ofélia, a protagonista da obra O Labirinto do Fauno (minha cadela tem esse nome, em homenagem à personagem). Uma coisa muito interessante sobre a obra em questão é que, diferente do comum, o famoso filme de mesmo título não é uma adaptação do livro, e sim o livro é uma adaptação do filme. Lançado em 2006, o filme é provavelmente a obra mais famosa do grande diretor mexicano, Guillermo del Toro, que em 2019, juntamente com a autora Cornelia Funke, adaptou a obra para a versão escrita, lançando-a pela editora Intrínseca. Com suas histórias fantásticas e obscuras, del Toro sempre nos leva para mundos onde o real e o mágico se misturam, mostrando-nos uma versão sombria e bela, ao mesmo tempo. Além de apreciar muito seus filmes, também já li o livro de A Forma da Água, que apesar de não ser tão bom quanto este, também faz-se muito satisfatório de apreciar. E mais interessante ainda, é o fato de que, por ser uma adaptação invertida, o livro possui uma perfeita narração do filme, sendo possível até ouvir as vozes dos atores nas falas (se você tiver assistido vezes demais, como eu). A única diferença entre as duas modalidades, é que no livro, entre os capítulos, adicionam-se contos, que nos mostram explicações aprofundadas sobre certas questões da história.


Há muito tempo, havia uma princesa, no mundo subterrâneo, chamada Moanna. Ela sonhava com a visão do belo céu, e um dia, conseguindo fugir de seu castelo, ela sobe para o mundo de cima. Com suas lembranças apagadas pelo sol, ela vagou pelo mundo, assolada por diferentes infortúnios, até que a morte a alcançasse. Entristecido pela falta de sua filha, o rei do mundo subterrâneo mandou seus subordinados atrás dela, e por eras eles a procuraram sem sucesso, e ele decidiu esperá-la até que o último suspiro deixasse seus lábios. 


Em 1944, ao norte da Espanha, após sua mãe, Carmen, uma viúva, se casar com o temido capitão Vidal, Ofélia, no auge de seus treze anos, precisa encarar o desolador abandono da alfaiataria de seu falecido pai, e a mudança para um antigo moinho, recém transformado em uma austera base militar. Apesar do desencorajamento de sua mãe, que, apesar de ser uma mulher doce, é desiludida com a vida, Ofélia continua acreditando na magia do mundo, que apenas ela, agora, consegue ver. 

Em meio à Guerra civil espanhola, o capitão Vidal, um homem extremamente rígido, insensível e inerentemente vil, quis garantir o que ele acredita ser seu dever como homem, arrumando uma esposa e gerando um filho, que herdará seu nome e o legado de heroi que ele irá construir, assim como foi com ele e seu pai. Nomeado como líder da base improvisada, ele precisa proteger o vale dos guerrilheiros, que escondem-se na floresta, e que vão contra o governo de Franco. Vendo-as apenas como inconvenientes, Vidal precisa aturar a costureira e sua filha (que ele acha) patética , enquanto ela carrega sua prole. 

Logo ao chegar, Ofélia vê fadas pela primeira vez em sua vida, e ao descobrir um antigo labirinto, perto do velho moinho, ela contempla que, talvez, existam pequenas fugas desse sombrio lugar para o qual foi levada. Em uma noite, seguindo as pequenas fadas, ela adentra o labirinto e conhece uma criatura intimidadora, alta, com chifres e uma pele que parece ser madeira esculpida. Este é o Fauno. Ele conta que a menina é a perdida princesa Moanna, do Mundo Subterrâneo, que vem sendo procurada por tanto tempo que não se conta mais. E que ela deve retornar para casa, mas que antes, é necessário que prove que ainda há pureza em sua alma. Três desafios são requisitados para que ela prove seu valor, e para ajudá-la, a criatura lhe dá um grande livro em branco e uma raiz de mandrágora, para que a garota coloque sobre a cama da mãe, com o intuito de melhorar sua frágil saúde. 

Enquanto Ofélia luta suas próprias batalhas, embaixo dos olhos de todos, outros acontecimentos rodeiam a trama. Os constantes conflitos entre os guerrilheiros e a base militar cria o conhecido e duro clima de guerra, que é adornado pela traição de Mercedes, a empregada chefe da base, que faz de tudo para apoiar, com suprimentos e informações, seu irmão, o líder desse bando de guerrilheiros, e junto dela, o trabalho duplo do médico, que fornece medicamentos e tratamentos para ambos os lados. Além da grande instabilidade no estado de saúde de Carmen e os bárbaros comportamentos e decisões de seu marido. 


É muito interessante a atmosfera na qual somos colocados, com cores esmaecidas, fazendo um contraste entre o mundo fantasioso de Ofélia e a secura dos tempos de guerra. Passando de sapos gigantes e fugas de monstros sem olhos que comem crianças, à confrontos armados na floresta, mortes e tortura, percebemos que, apesar da habilidade humana de se colocar sempre no centro do universo, as coisas só possuem importância de verdade porque decidimos dar tal relevância à elas. 


E no final, vemos o encontro dos dois mundos, em um confronto no labirinto entre Ofélia, com seu pequeno irmão recém-nascido e um Vidal ensandecido, e as implicações geradas por isso. 


Sobre os contos entremeados aos capítulos, eles são 10. Explicam coisas no pano de fundo da história, como a origem de uma estátua esculpida do Fauno, o labirinto, a história do moinho, o relógio do pai de Vidal, a navalha e a faca que os personagens carregam, a criação do livro de Ofélia, a vida do Fauno, as circunstâncias que seguiam o alfaiate, entre outras questões. Apesar de não serem estritamente necessários, saciam nossa vontade de saber mais sobre o mundo e adicionam um pouco mais da beleza da fantasia e da magia que tornam o enredo tão excepcional. 


Recomendo, caro leitor, que assista o filme e que leia o livro, que por acaso pode ser acessado gratuitamente em PDF na internet, e veja com seus próprios olhos algo que eu denomino, de maneira mais que merecida, uma obra prima. 


Espero que tenha gostado do post de hoje. Caso sim, deixe uma curtida e um comentário, compartilhe com amigos, vamos conversar sobre livros. Isso me incentiva muito a continuar toda semana. Nós nos vemos na próxima semana, talvez tenha uma surpresa. 


Adeus, Querido leitor. 


Com amor, Ana J. Carvalho.


 
 
 

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