As obrigações que os laços nos impõe, em Dívida de Sangue, de Michael Connelly

Você já deve ter sentido, caro leitor, uma obrigação em relação à algo ou alguém, seja por qualquer motivo. Isso nos coloca em dívida com essa pessoa, gerando uma necessidade de devolver-lhe, de alguma maneira. É esse sentimento que motiva toda a história que vemos na obra “Dívida de Sangue”, do autor americano Michael Connelly, publicada em 1998 e adaptada para o cinema em 2002.
É surpreendente como, apesar do padrão da estrutura narrativa de suspenses policiais já ter se solidificado no final do século XX, o autor produz criativamente, utilizando desses pontos pré-estabelecidos, mas construindo um enredo que trabalha muito bem com o padrão, sem parecer se adequar à ele, não criando previsibilidade e mantendo o sentimento de suspense, necessário para ser um bom exemplo do gênero.
Nessa interessante história, conhecemos o ex-detetive do FBI, agora aposentado, Terry McCaleb, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Apesar de ser o melhor em seu trabalho e ter uma carreira em constante ascensão, Terry teve que interromper tudo e aposentar-se por invalidez, ao ter um ataque do coração durante o cumprimento de seu trabalho. Depois de algum tempo esperando na lista para receber um transplante de coração, algo que parecia impossível, devido ao fato de ele possuir um sangue raro, um doador finalmente surgiu, salvando sua vida. Dois meses depois, ele vive tranquilamente em seu barco, tendo aparentemente aceitado bem o órgão. E é com resignação que ele recebe uma mulher que veio lhe procurar para investigar um crime. O fato era muito recorrente, pois as pessoas descobriam da existência de Terry pela matéria que relatou sua cirurgia, e frequentemente ele era procurado pelos desesperados que não obtinham resultado com a polícia. Preparado para negá-la, assim como com os que a antecederam, é com surpresa que o homem descobre que a mulher, chamada Graciela Rivers, é irmã de Glória Torres, uma inocente que foi assassinada durante um assalto à uma mercearia na cidade, e que era a portadora do coração que agora bate no peito de Terry. Sem quase nenhuma pista e promovendo a ideia de ter sido perpetrado por um qualquer querendo roubar trocados, o caso foi esquecido pela polícia de Los Angeles. Pretendendo recusar, devido a não ser mais agente e nem investigador particular, Terry é convencido pela bela mulher, e um sentimento de dívida, para com Glória Torres, se forma em seu âmago. Portanto, ele aceita dar uma olhada no caso, mas pede à mulher que ela não crie esperanças sobre o resultado.
Enfrentando as dificuldades de ser, agora, um civil, sem direito às informações da polícia e sem nenhum respeito dado pelos responsáveis pelo caso, que não querem nenhum enxerido dizendo que eles fizeram um trabalho ruim, Terry precisa andar para lá e pra cá, puxando antigos contatos para conseguir migalhas sobre o caso, além de esmiuçar tudo que já foi descoberto pelos oficiais. Assim, ele revisita lugares e pessoas de interesse, aborda até os mais irrelevantes dos pontos, e cutuca todo um vespeiro, que deságua em diferentes acontecimentos, seja interligando esse à outros casos, criando inimizade com a polícia, que tenta barrá-lo, encontrando negligências na investigação, e culminando na grande descoberta de que nada daquilo foi ao acaso, como pareceu ser, e uma mente diabólica e extremamente sagaz parece puxar todos os fios dessa trama. Na árdua investigação que ele realiza, além de enfrentar um criminoso perigoso, ele também coloca sua própria saúde em risco, não podendo fazer tudo o que faz, ainda se recuperando do transplante e expondo-se à rejeição do órgão, que o levará à morte. Nesse caminho, ele também se depara com o desenvolvimento de sentimentos por Graciela e Raymond, o filho que Glória deixou ao morrer, o conflito com sua cardiologista, que não quer que ele assuma essa investigação, e a descoberta de que tudo parece estar interligado à algo inacabado de seu passado e que o perigo é muito maior do que aquilo que ele imaginava estar enfrentando.
Apesar da progressão lenta da descoberta de provas e do sentimento geral de que o caso não vai pra frente e pode nunca ser solucionado, a história se formula de uma maneira bem interessante, nos deixando entretidos com a vida de McCaleb, seus conflitos e desenvolvimentos. Faz-se uma boa leitura de cabeceira, além de ser um ótimo exemplo de como conduzir um romance policial.
Por essa semana, é só, caro leitor. Espero que tenha gostado da resenha. Se sim, deixe uma curtida e um comentário. Inscreva-se na minha correspondência para sempre ser avisado quando eu fizer um post novo. E cuide-se.
Adeus, querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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