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Os maiores cegos são aqueles que não querem ver, em Era Uma Vez…, de Júlia Lopes de Almeida

Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
Ana Julia Carvalho
19 de ago.
4 min de leitura
Capa do E-book "Era Uma Vez" de Julia Lopes de Almeida. Primórdio do Fantástico Brasileiro.
Capa do E-book "Era Uma Vez" de Julia Lopes de Almeida. Primórdio do Fantástico Brasileiro.

Apesar de não consumir muita Literatura Brasileira, como já dito anteriormente, caro leitor, foi por causa de um curso de introdução à Literatura Fantástica, que me deparei com a história “Era Uma Vez…” de Júlia Lopes de Almeida, publicada em 1917. É uma obra bem curta, que você pode ler gratuitamente pelos PDFs disponibilizados na internet. Apesar de ter um quê de conto de fadas, e ser uma obra infantojuvenil, traz uma reflexão profunda que faria até o mais cético entre os adultos, refletir sobre suas visões. 

Para passar-lhe o conhecimento que me foi transmitido, conto que a autora foi uma das precursoras na produção da literatura infantojuvenil brasileira, em uma época onde ainda começavam a entender a necessidade de produzir livros para crianças, que antes não eram exatamente consideradas seres pensantes, merecedoras de algo próprio e adequado. Também há a questão da criação de obras pedagogizantes, que pudessem lhes passar lições, e não necessariamente propiciar-lhes prazer e deleite no consumo. Já sobre a literatura fantástica, não devemos confundi-la com o gênero fantasia. Há diferentes teóricos falando uma ou outra coisa por aí, mas o mais estabelecido é Tzvetan Todorov, que escreveu sobre a estrutura narrativa do fantástico. Ele afirma que esta modalidade é trazida quando temos elementos antinaturais, “impossíveis”, mas que não são necessariamente confirmados, como nos contos de fadas da Disney. Para que o fantástico realmente seja fantástico, é necessário haver dúvida em relação à veracidade dos acontecimentos. É preciso construir um sentido subjetivo, que possa sair da interpretação de cada um, em relação à se tais coisas aconteceram ou se não passam da imaginação dos personagens da história. 


Mas enfim, pararei de aborrecê-lo com estudos e voltarei à história. Nela, temos uma princesa, a pequena Edeltrudes, que nasceu portando tanta fragilidade, que ninguém esperava que ela durasse muito, e por isso, envolveram-na de todos os cuidados possíveis. Mas surpreendendo à todos, ela perseverou e sobreviveu. Devido à ter sido tão mimada, ela foi se formando com vontades imperiosas. Ainda quando muito jovem, sua mãe faleceu enquanto a ninava, gerando muitas tristezas pelo reino. Diziam que a princesa era tão intratável que não tinha coração, e que a rainha morreu para dar o próprio à ela. O rei, muito abatido, criou Edeltrudes sem nunca lhe negar nada, com medo de que uma mera negativa pudesse parar seu coração, como fez o de sua mãe. Assim, ela se tornou uma pessoa egoísta, maldosa, se achando superior à tudo e à todos. Era sempre muito grossa e se divertia ao fazer os outros sofrerem, atendendo todos os seus infinitos pedidos. O reino era mais triste por causa dela e todos temiam-na. 

Mas Edeltrudes sabia que não era feliz. Não entendia como os outros, tão pobres e inferiores à ela poderiam ser alegres, mesmo que ela quem tivesse tudo. Certo dia, montando em seu cavalo, ela cavalgou por seu reino. Observou a plenitude dos trabalhadores, mesmo que fizessem seus árduos afazeres ao sol. Todos pareciam sentir-se completos, mesmo nas condições de vida que tinham. Indo para um abrigo para cegos, nos arredores do reino, ela questionou-se o porquê de construir um lugar tão belo para aqueles que sequer poderiam ver. Por que eles precisariam disso? Poderiam viver sem nada. Ela não entendia porquê qualquer um precisaria de qualquer coisa. Não achava que merecessem. Enquanto observava, viu três cegos surgirem. Eles conversavam acaloradamente, e era sobre ela. Criticavam-na sobre a impiedade que ela demonstrava com todos, mas também direcionavam-lhe pena, pois claramente era um ser muito infeliz. Ao escutá-los, ela se encheu de fúria e retornou ao castelo. No dia seguinte, mandou chamar-lhes. Apavorados, os cegos ouviram suas sentenças. Cada um recebeu uma missão. Um deveria explorar o fundo do mar e descobrir suas maravilhas, o segundo deveria navegar pelo espaço e ver aquilo que não podemos da terra, o último deveria adentrar a floresta, e todos teriam de trazer para ela a narração do que viram. Se não o fizessem, todos seriam enforcados nas árvores mais altas do jardim do palácio. Em completo desespero, todos se espantaram com a dureza da mulher, que mandava que cegos pudessem ver, para defender a própria existência. 

Três dias depois, no combinado, os três homens amedrontados se apresentaram novamente. Apesar de empolgada, esperando as execuções com um festejo, Edeltrudes ouviu narrações que mal poderia conceber, sobre visões fantásticas, criaturas jamais vistas e experiências nunca antes vividas. Os cegos os fazem ver, assim, abrindo verdadeiramente os olhos, e até o coração, da cruel princesa. 


Não posso contar mais do que isso, você teria que ler, para entender, caro leitor. Mas o que acontece, mostra-nos uma lição que parece óbvia, mas que só nos revela sua real importância quando paramos para refletir. Eu mesma me pûs muito apreensiva em relação ao final dos pobres cegos, mas o que eles me fizeram ver, mesmo sem poderem enxergar, expandiu meus horizontes para a beleza da realidade e do que há além dela. Por isso, não subestime o valor da história apenas porque ela “é para crianças”, afinal, todos nós já fomos uma e lembrar-se disso é essencial. 


Enfim, não sei se consegui interessá-lo, caro leitor, mas acredito que todas as histórias, de todos os tempos e lugares diferentes, configuram como um aprendizado. Se gostou deste post, deixe uma curtida e um comentário. Assine minha correspondência para sempre ser avisado quando eu publicar algo. E lembre-se, se não encontrar na vida o modo fantástico, você sempre pode criá-lo.


Adeus, querido leitor.


Com amor, A. J. Carvalho.


 
 
 

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