O que é a realidade?, em Terra Sonâmbula, de Mia Couto

Foi por meio de um clube do livro, do qual estou fazendo parte, que tive o prazer de ler a obra “Terra Sonâmbula”, publicada em 1992 pelo autor moçambicano Mia Couto. Apesar de ser, talvez, extremamente ignorante de minha parte, eu não sabia que a língua oficial de Moçambique era o português, e só percebi devido ao fato de ter me deparado com umas palavras muito estranhas e difíceis de compreender, que com certeza não foram traduzidas para o português brasileiro.
A obra, definitivamente, se enquadra no que eu chamaria de excêntrico, devido à sua linguagem, que é claramente um artifício estético proposital, à sua estrutura narrativa peculiar, que não se preocupa com início, meio e fim, ou com o fechamento de certos arcos, e com a falta, de certa forma, de um esclarecimento maior em relação ao término da história. Também há a questão extremamente ambígua em relação aos fatos fantásticos que a permeiam. Se eles são verdadeiros ou se são apenas o modo de ver dos personagens. Chega a ser complexo explicar todas essas questões, mas farei o possível para que entenda um pouco mais.
No começo, somos introduzidos ao cenário. Estamos em algum lugar, não especificado, do continente africano, e uma guerra parece ter devastado a terra, transformando o lugar em algo meio apocalíptico. Fica dúbia a ideia, pois não sabemos bem se se trata de uma guerra normal, que destrói os lugares em que passa, ou se realmente é algo distópico. Então, somos apresentados a dois dos personagens principais, Tuahir e Muidinga. O primeiro, um senhor, o outro, uma criança (não é claro se é uma criança pequena ou um pré-adolescente), que andam juntos por esta terra devastada, tentando sobreviver na fome e na aridez da realidade. O velho adota o miúdo após tê-lo achado à beira da morte, e tendo sobrevivido, os dois se juntaram em sua jornada para lugar nenhum. No caminho, eles encontram um machimbombo (tipo um ônibus) incendiado e decidem se alojar, pois não correriam o risco de serem atacados por bandidos da estrada, que acreditariam que tudo dentro do veículo estaria morto. Investigando seus arredores, atrás de recursos, eles encontram um corpo morto, já decomposto, carregando uma maleta. Ansiando por comida, eles a levam para o automóvel, mas ao abrirem-na, descobrem vários cadernos, como diários. Muidinga, apesar de não lembrar de nada do seu passado antes de Tuahir, e de ter um desejo imenso de encontrar sua família, se é que ele ainda possuía uma, sabia ler, mesmo sem entender como, e assim, mesmo que o velho apresentasse certa resistência no começo, eles começam a leitura dos cadernos, que foram escritos por um jovem chamado Kindzu. Nos diários, ele conta sobre sua pobre infância em família, sobre seu pai, um pescador bêbado que sonhava como um profeta, nas dificuldades maiores que a guerra impôs a eles, na, então, morte de seu pai, nas cerimônias que faziam para que ele não voltasse e os perturbasse, na morte de todos os seus irmãos, no ataque ao comércio do indiano, seu único amigo, de sua partida para o mar, para se tornar um Naparama (um guerreiro), e muito mais. Ele atravessa acontecimentos fantásticos, passa a ser amaldiçoada pelo fantasma de seu pai, amadurece através da sobrevivência no mar, passa por muitas aventuras, enfrenta a morte algumas vezes, se apaixona, envolve-se com diferentes mulheres, descobre muitas das diferentes formas como essa terra foi e está devastada, e é acompanhado de perto pelos olhos de Tuahir e Muidinga, que não tendo alimento, se abastecem das coisas incríveis que permearam a vida de Kindzu em sua jornada. Enquanto isso, também vemos as pequenas aventuras dos dois, que rodam e rodam, e encontram tão pouco, com medo de abandonar o lugar aparentemente seguro que encontraram. Mas se deparam com antigos conhecidos, com rituais para a terra, com as mudanças climáticas, com o revolver do lugar, que parece nunca dormir. E com o surpreendente fim que essa junção de histórias nos leva.
A obra tem uma característica interessante de ser exacerbadamente preenchida de informações, causando até uma certa dificuldade de ler, requerendo total atenção, pois sem ela, pode-se perder completamente o fio da meada, jogando-o em uma confusão total. Devido à isso, não há como explicá-la realmente, é necessário que se leia para entender. Não tenho um meio do qual falar e nem um final para discutir, pois ele fica em aberto, e não é tão distante de seu começo, pois a obra é como algo estagnado, não exatamente evolui, só são coisas que acontecem e se acumulam. E isso não é algo ruim, de maneira alguma. Só é uma estrutura diferente, bem original, do tipo a ser assistida, parado, sem expectativas. Mas tenho que confessar que me surpreendi muito com a revelação final, e quando digo final, é final mesmo, na última frase. De maneira que é dita, simplesmente assim, deixando-nos sentados no escuro a contemplar a existência, e então começar a ligar pontos do começo, como se estivéssemos presos em um ciclo. É claro que deixa perguntas, que pelo menos a mim, inquieta, mas acho que suas respostas não são necessariamente, bem, necessárias. Há de se viver sem algumas explicações, afinal, é por isso que a terra não para nem no descanso, como se fosse sonâmbula.
Sei que por vezes sou muito vaga, caro leitor, mas esta não é uma obra de se explicar tanto assim, ela requer uma interpretação própria, que eu não posso lhe passar. Por isso, recomendo que veja com seus próprios olhos e possa assim entender o que quer que seja.
Espero que tenha gostado do post de hoje. Se sim, deixe uma curtida, faça um comentário. Se inscreva na minha correspondência para sempre ser avisado quando eu fizer uma postagem nova. E tome cuidado quando andar por esta terra, ela pode esconder coisas fantásticas.
Adeus, querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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