top of page
Buscar

As palavras que acalentam a alma até nos piores momentos, em A Menina que Roubava Livros, de Marcus Zusak

Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
Ana Julia Carvalho
3 de jun.
6 min de leitura
Cartaz do filme "A Menina que Roubava Livros", de 2013.
Cartaz do filme "A Menina que Roubava Livros", de 2013.

Eu não sei qual é seu repertório sobre o assunto, Caro leitor, mas em matéria de Segunda Guerra Mundial, o livro “A Menina que Roubava Livros”, publicado em 2005, por Marcus Zusak, e adaptado paro cinema em 2013, é, definitivamente, um ótimo exemplo da perspectiva dos infortúnios que a guerra traz para pessoas comuns e inocentes. 


Aqui temos, diferente da maioria das histórias, um narrador que é a própria morte, pois, assim como ela mesma diz, é o ser mais presente nos tempos de guerra. Temos uma interessante visão dela, que é personificada em um ser quase humanoide. No entanto, mantêm-se no quase, pois vários elementos nos separam dela. Primeiro que, para ela, o tempo não importa de verdade, pois já é muito antiga, e portanto não nos deixa ficar ansiosos, sempre contando os resultados antes que aconteçam, segundo, ela vê o mundo por cores e de uma maneira extremamente sinestésica, dando atributos a coisas que não são condizentes com as mesmas, como dizer que “um soluço se sentou”, e em terceiro, ela não compreende os humanos exatamente como somos, mas também tem suas complexidades. Também está cansada de fazer um trabalho tão extenuante há tanto tempo, também se sente curiosa sobre a vida de um ou outro mortal as vezes e se solidariza pelas almas que partiram antes da hora. Diferente do que pensam, ela não ceifa a vida de ninguém, apenas busca as almas quando chega a hora, e a hora chega para todos, menos para ela, infelizmente. 


Em um de seus trabalhos, onde tentava não prestar atenção em ninguém, ela não resistiu a olhar, apenas por um momento, para uma desnutrida menina alemã, em 1939, com olhos escuros e profundos, pegando um pequeno livro preto perdido na neve. Seu primeiro roubo, que seria precedido por muitos outros. 

A morte não tem tempo para assistir a vida dos outros, mas, anormalmente, ela encontrou Liesel Meminger três vezes antes de ir buscar a alma da mesma, e com a ajuda de um livro com páginas rígidas, recolhido de uma caçamba de escombros, ela pôde interligar os pontos da vida da menina, onde não esteve presente.


A primeira vez foi ao lado de um trem parado, no meio do extremo branco da neve, em uma cidadezinha alemã. A mãe da menina estava levando ela e o filho mais novo para uma família de acolhimento, onde teriam uma situação um pouco melhor. No entanto, inesperadamente, o menino morre de tosse no caminho. Enquanto colhia a pobre alma, tão encolhida como a de um passarinho, o anjo olhou para a menina que parecia ter-lhe visto. O falecimento de seu irmão traumatizou-a por muitos anos, mas no dia de seu enterro, executado com dificuldade devido ao tempo, apesar de não saber ler ou escrever, ela roubou, pela primeira vez, um livro, caído do bolso do aprendiz de coveiro. Ironicamente, aquele era o “Manual do Coveiro”, mas ela só descobriria isso tempos depois. Após essa tragédia, Liesel foi deixada na pequena cidade de Molching, na rua Himmel (que significa céu) com os pobres Rosa e Hans Hubermann. Não foi por causa da justaposição entre a dureza de Rosa, que apesar de ser muito severa e sempre com um palavrão na língua, mas que tinha um grande coração ou da gentileza de Hans, que cedia a todos os caprichos e necessidades de atenção de sua bela menina, mas Liesel passou muita dificuldade para se adaptar à nova vida. Mas que pessoa comum que realmente se adaptava à uma vida na Alemanha nazista, não é? Mas Liesel pôde compensar a desolação em relação à morte do irmão, ao abandono da mãe, à segregação que sofria na escola por estar atrasada, com a bondade de seu pai ao dormir com ela para salvar-lhe dos pesadelos, tocar acordeão para que ouvisse e ensinar-lhe a ler, com a mãe que, apesar da grosseira, sempre mantinha um cuidado para com ela, ou com a companhia de Rudy, o menino de cabelos da cor do limão, que era seu vizinho, seu melhor amigo e que sempre lhe pedia um beijo, que ela nunca aceitou conceber, apesar de perceber, tardiamente, que o amava. Também tiveram os jogos de futebol, os roubos de frutas, uma enorme e receptiva biblioteca da esposa do prefeito e Max, o judeu que eles esconderam por um tempo, que junto dela, aprendeu o valor das palavras. Seu poder de curar, de acolher e de amar. 


A segunda vez foi uns quatro anos depois, quando muito já havia acontecido. Tantas coisas evoluíram, incluindo tantas tristezas que se acumularam, correspondentes a um período de guerra tão difícil. Um sombrio período de bombardeios assolava os cidadãos alemães, principalmente na parte mais pobre das cidades, e após mais um desses ataques, ao saírem do abrigo, Liesel e Rudy perceberam uma coluna de fumaça ao longe. Lá, um avião abatido repousava com seu piloto estrangeiro, no meio da confusão entre neve e destroços. Presente para levar o homem, que estava prestes a dar seu último suspiro, a morte reconheceu Liesel Meminger, agora mais velha do que havia visto quando colheu a alma de seu irmãozinho. Mal sabia ela que poucos meses depois, a veria novamente, e pela última vez antes de voltar para buscá-la. 


Não direi muito sobre a terceira vez, quando o mundo de Liesel ruiu e a morte pôde contemplar todos os anos de sua história, onde não esteve presente. No livro, não é um mistério para nós, pois, como disse, o anjo tem o constante mau hábito de contar-nos tudo antes de acontecer. No entanto, partindo do pressuposto de que você, Caro leitor, ainda não realizou esta leitura, irei preservá-lo de vislumbrar o triste fim que abate a história. Mas, não perca a esperança. Apesar de todas as tragédias que envolvem os diferentes ciclos da vida de Liesel, pequenas luzes encontraram-na no escuro. E, pode-se dizer, que quando a morte finalmente veio lhe buscar, sua alma recebeu-a como a uma velha amiga, tendo tido uma boa vida e estando de bem com o término dela. 


Particularmente, gosto demais deste livro. Tanto, que essa é a terceira vez que leio. É interessante ver como uma história muda de acordo com a maturidade que sua mente adquiriu, fazendo com que toda leitura tenha uma nova percepção. Não posso dizer que não é um livro triste, afinal, como já sabemos, é muito difícil ser feliz em tempos de guerra, mas, são as pequenas coisas, pequenas conquistas e acontecimentos, que constroem a felicidade que não deixa que a obra se trate apenas de um lamento sem fim. Um livro roubado, o som de um acordeão, uma moeda no chão ou até um rabisco mal feito na parede, pode ser tudo que alguém precisa para continuar e não deixar-se abater por completo. Este livro, acredito, é talvez o melhor exemplo de como devemos apreciar essas pequenas coisas, desmanchando a ideia de que a felicidade se encontra em lugares distantes e inacessíveis. Também é uma ótima lição histórica, falando-nos sobre os níveis de submissão e engajamento no Terceiro Reich de Hitler. Como eram as vidas de seus seguidores, o que acontecia com aqueles que discordavam, como doutrinavam os jovens para criar a super potência na qual acreditavam, como foram lentamente segregando a “diversidade”, principalmente os judeus, e como acabou da maneira que acabou, entre outras coisas. 

Além dos personagens, também tenho um grande apreço pela narração da morte, que vê as coisas de uma forma tão singular a nossa, que faz-nos sentir que realmente se trata de algo não-humano. Mas, acima de tudo, assim como na resenha anterior, esse livro serve para nos transportar para esses tempos horríveis e de tamanha dificuldade, para refletirmos sobre as consequências das péssimas escolhas da raça humana, e os danos que elas causam em muitos outros, e como devemos evitar cometer os mesmos erros, apesar de que ninguém parece realmente se importar com isso, afinal, temos guerras acontecendo pelo mundo neste exato momento. É sempre interessante ver como todos se horrorizam com o passado, mas facilmente reproduzem ele. 


Espero que tenha gostado da resenha, Caro leitor. Se sim, por favor, deixe uma curtida, um comentário e se inscreva na minha correspondência, assim você sempre será avisado quando eu publicar um novo post. E lembre-se, olhe bem para o passado antes de tomar grandes decisões para o futuro.  


Adeus, Querido leitor.


Com amor, A. J. Carvalho. 


 
 
 

Comentários


bottom of page