Até onde maldições antigas podem determinar nossos destinos?, em Julieta, de Anne Fortier

É imprescindível que conheça, caro leitor, a peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, do século XVI. Mas caso não esteja em posse de tal ciência, saiba que é, talvez, a peça de teatro mais famosa do mundo, além de ser uma tragédia, literalmente (esse é o gênero). Na história, que se passa na cidade de Verona, na Itália, um jovem casal se apaixona em um baile de máscaras, para logo descobrir que são membros das duas famílias mais poderosas da cidade, que, por acaso, são inimigas mortais. Um romance exacerbadamente intenso se desenvolve, mas devido a impossibilidade de continuar, um plano é traçado, resultando na morte de muitos, incluindo os próprios Romeu e Julieta, que são vítimas de sua própria paixão.
Após essa introdução, ouso indagar sua opinião em relação a maldições. Você acredita que elas possam ser reais? Se sim, até onde acha que nosso livre arbítrio nos leva? É possível mudar as coisas ou não importa que decisões tomemos, tudo sempre acabará da mesma maneira?
Nesta obra, escrita por Anne Fortier, em 2014, somos trazidos para a atualidade, e vemos o quanto uma antiga história de amor, ou de tragédia, pode afetar a vida de pessoas que viveram mais de seiscentos anos depois.
Julie Jacobs não imaginava que sua vida iria mudar tanto, quando é avisada sobre a morte de sua tia Rose, que criou ela e sua irmã gêmea, Janice, como guardiã, e com a descoberta de que a mesma deixou toda sua fortuna para a outra, em vez de dividi-la entre as duas. A única coisa que alivia minimamente sua confusão e dor, e a faz sentir-se melhor em relação ao fato da irmã, que sempre foi maldosa com ela, ter ficado com tudo, é a carta secreta de sua tia, entregue pelo mordomo, Umberto, que sempre lhe foi como um pai, instruindo para que viajasse para Siena, onde elas nasceram, para encontrar os segredos de família, que sua mãe, Diane, deixou lá quando morreu, muitos anos atrás, e contando que seu nome, na verdade, era Giulietta Tolomei, e que havia mudado-o para a proteção das gêmeas.
Procurando por uma fortuna, para sobressair-se a sua irmã e pagar as dívidas do cartão de crédito causadas pela falta de rumo de sua vida, Julie, ou agora, Giulietta, viaja para Siena, fantasiando sobre o que poderia encontrar.
Logo de cara, ela conhece Eva Maria Salimbeni, que, apesar de ser extremamente amigável, revela-se integrante de uma família que possuía uma rixa mortal com a sua, pelo menos no passado, e que os Tolomei, sua própria família, era, junto dos Salimbeni, duas das famílias mais influentes de Siena, séculos atrás. Conhece também o afilhado da extravagante mulher, o sedutor Alessandro Santini, que além de constituir um tipo de guarda militar de um dos maiores bancos de Siena, automaticamente sente antipatia por Giulietta e por quem ela diz ser. Ignorando os alertas deles em relação ao perigo que pessoas com seu sobrenome podiam ser expostas naquela cidade, ela segue as pistas escassas deixadas por sua mãe, que, aparentemente, morreu buscando por um mistério sem solução.
Com quase nada, Giulietta perambula por Siena, reunindo cada vez mais objetos e conhecimentos, que só contribuem para deixá-la mais perdida. Uma caixa de madeira de sua mãe; diários e documentos velhos que parecem corroborar com a ideia de que Shakespeare não criou a história de Romeu e Julieta, e sim, adaptou-a de outras histórias escritas anteriormente, que supostamente baseavam-se no romance entre Giulietta Tolomei e Romeo Marescotti (uma terceira família influente que não tinha rivais), acontecido em 1340, em Siena, não em Verona; a bandeira do Palio de 1340, um prêmio dado ao vencedor da corrida de cavalos que é o principal acontecimento cultural da cidade e uma adaga enferrujada, com o símbolo de uma águia, são os objetos que levam ela por múltiplos caminhos e até a pessoas aleatórias, com as quais forma alianças. As coisas parecem estar progredindo, quando Giulietta começa a ser perseguida, tanto por um homem suspeito usando um sobretudo, quanto por um motoqueiro misterioso que nunca se revela ou se comunica. Temendo por sua segurança, quando os acontecimentos começam a ficar perigosos, ela busca a ajuda de Alessandro, que passa a acreditar em sua identidade e que, a contragosto, aceita protegê-la. Uma inegável atração desenvolve-se entre os dois, mas, teimosamente, Giulietta não quer dar voz às suas vontades, pois, descobrindo que, assim como ela é a primeira a ter o mesmo nome da mulher que originou a peça de teatro, também há um Romeo Marescotti por aí, e ela nutre esperanças em relação à um romance utópico com ele.
Descobrindo a identidade de seu perseguidor, e mais e mais fatos desconhecidos sobre o passado, reconstituído pelos documentos que sua mãe a deixou, com diferentes testemunhos da época, além de uma possível trama secreta que envolve muitas outras pessoas e a muito mais tempo do que ela pensava, motivada por uma maldição escrita na parede de uma câmara de tortura por um monge, séculos antes, Giulietta se vê entre uma caçada por uma relíquia de valor incalculável, chamada “Olhos de Julieta”, que até onde muitos sabem, não passa de uma lenda, e uma paixão arreabatadora na qual não se pode confiar, além de um fundo maléfico e criminoso que parece envolver tudo que aconteceu com sua família e que agora parece persegui-la. Segredos, mentiras e traições são acompanhantes constantes nessa trama onde, apenas um momento de inércia, pode significar uma sentença de morte. E seguimos a moça de perto por todos os enigmas e obstáculos, guiados pelo famoso dramaturgo inglês e que a levam para o destino que foi predeterminado mais de seiscentos anos antes, e que pode ou não culminar na tragédia que todos esperam.
É muito intrigante como, apesar de não possuir nem quatrocentas páginas, a obra possui tanta informação que bombardeia-o de todos os lados, o tempo todo, e ainda assim não se faz carregado demais ou confuso a ponto de incapacitar a compreensão de todos os fatos. Também gostei bastante do romance, que me empolgou muito e cumpriu com as minhas expectativas de uma defensora incurável de Romeu e Julieta. Gosto muito dessas reconstituições históricas ficcionais que criam verdades e explicações diferentes em lugares onde elas são precárias. Apreciei também a tamanha evolução apresentada pela personagem principal, que entre o começo e o fim, tornou-se uma pessoa totalmente diferente, a pessoa que ela estava destinada a ser, e me agradou muito a frequente troca entre as narrações da atualidade em contrapartida com a contação dos eventos do passado, que nos trazem em primeira mão os pontos de vista dos amantes eternos, e como sua tragédia sucedeu-se de outra forma que não a que Shakespeare contou.
Enfim, como pode observar, caro leitor, adorei o livro, e espero ter deixado-o interessado em lê-lo. Se gostou deste post, deixe uma curtida e um comentário, inscreva-se na minha correspondência para sempre ser avisado quando eu postar algo novo, e lembre-se que, não importa que algo pareça estar predeterminado, você sempre pode traçar o próprio caminho.
Adeus, querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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