Essa não é uma história de amor, em Drácula, de Bram Stoker

Talvez você já tenha assistido, caro leitor, o célebre filme de 1992, intitulado “Drácula de Bram Stoker”, que possui um elenco famosíssimo e que instaurou-se na lembrança de toda uma geração, unindo-se à imagem de “Nosferatu”, de 1922, que foi a primeira retratação do vampiro no cinema. No entanto, o que você pode não saber, é que o livro escrito pelo autor irlandês, Bram Stoker, em 1897, pode não ter sido a criação da criatura “vampiro”, mas foi a criação dos ilustres personagens “Conde Drácula” e “Van Helsing”, que fizeram inúmeras aparições em diversas produções culturais nos séculos seguintes. E apesar de gostar muito de várias adaptações dos mesmos, eu particularmente desprezo o filme de 92, pois adoro o livro, e apesar do que muitos pensam, o filme mudou coisas demais da história, exagerando-a e deixando-a quase irreconhecível para mim. Portanto, friso no próprio título que esta não é uma história de amor, pois o filme transforma-a nisso, criando um romance entre Drácula e a personagem feminina principal, que seria a reencarnação de sua esposa perdida, e o motivo para ele ter se tornado um vampiro, coisa que não existe no livro, pois a mesma é totalmente fiel à seu marido. Enfim, pararei de reclamar sobre isso. Já não basta o quanto gasto os ouvidos de minha mãe nesta discussão, já que ela defende tal adaptação horrorosa.
O romance possui uma estrutura que eu particularmente acho muito interessante, que é a narrativa epistolar, que se trata de uma formulação onde a história é contada por meio de documentos escritos, no caso, cartas, diários, jornais, etc. Fragmentos que se unem para formar o todo e nos mostrar diferentes visões de personagens, que nesta história são diversos. Começamos no final do século XIX, com um de nossos protagonistas, Jonathan Harker, um advogado enviado para a Transilvânia por sua firma, que está fechando um grande negócio em relação à tomada de posse de uma propriedade em Londres, na Inglaterra, por um nobre romeno, o conde Drácula. Não é apenas o estranho comportamento que todos que o encontram em sua longa jornada até o castelo do nobre assumem, mas também os peculiares acontecimentos de cunho assustador e sobrenatural que abarcam toda a experiência, que fazem com que Jonathan não se sinta nem um pouco confortável de estar onde está, mesmo sendo um cético em relação à superstições. Mas os questionáveis trejeitos e ações do conde, a maneira como parece ser tão superior e opressivo, mantendo sempre a sensação de ser um grande predador diante de suas vítimas, e as coisas pelas quais o advogado é submetido no tempo que foi prisioneiro no castelo de Drácula, só nos dá a certeza de que o homem caiu nas mãos do próprio diabo, a encarnação do mal.
Enquanto passamos pelos relatos angustiantes de Jonathan e suas tentativas de fugir dos horrores que viu e da morte certa, somos apresentados, por meio de cartas e de seu diário pessoal, à querida Wilhelmina Murray, a amada noiva do advogado. Uma mulher madura e muito bem decidida, Mina almeja tornar-se datilógrafa, trabalhar para um jornal como correspondente, quem sabe, e casar-se com seu grande amor, Jonathan. Apreensiva em relação à demora e à falta de notícia apresentada pelo noivo, acompanhamos-na enquanto ela visita e ou troca correspondências com sua melhor amiga, a doce Lucy Westenra. Lucy, extremamente bela e cheia de vida, enfrenta as batalhas do amor. Três homens lhe pediram a mão, sendo eles o honroso médico, Dr. John Seward, o nobre e futuro lorde, Arthur Holmwood, e o cavalheiro americano, Quincey Morris. Apesar de considerar todos, por serem homens muito decentes, ela segue seu coração e aceita casar-se com Arthur. No período de meses no qual Jonathan se vê ausente, Mina transita entre a cidade de Lucy e sua própria casa, mas é em uma de suas visitas à Whitby que, além de criar uma certa amizade com um velho marinheiro soturno, ela observa o desenrolar da chegada do navio Deméter ao porto. Envolvido em inúmeros mistérios, o grande cão negro que pula do convés do navio é o de menos, quando descobrem que toda a tripulação do barco morreu na viagem, e além de seus corpos, ele guardava apenas o último relato desesperado de seu capitão e várias caixas grandes de terra. Junto com o barco, algo de maligno parece ter se assomado sobre a cidade, com muitos acontecimentos estranhos causando temor nos cidadãos. Nesse ínterim, algo parece se abater sobre Lucy, que começa a vagar perigosamente por aí, sonâmbula e a adoecer subitamente, passando à um estado pálido e fraco, exangue. Com o agravamento de sua situação, aproximamo-nos do Dr. John Seward, que gerencia seu próprio manicômio e, como um apaixonado por Lucy, passa a tratá-la. Mas as preocupações que envolvem sua condição misteriosa, que parece intratável, o fazem recorrer ao seu antigo mentor, o honorável professor holandês Abraham Van Helsing. E enquanto eles tentam salvar a moça, Mina precisa viajar para encontrar Jonathan, no meio do caminho entre seu destino de viagem e sua casa, pois este foi resgatado, em estado deplorável e se encontrava sendo cuidado por freiras em um mosteiro, após ter, surpreendentemente, fugido com vida do castelo do monstro que o aprisionou. Lá, apesar de parecer um homem totalmente diferente, amedrontado, eles se casam, para logo descobrir que, depois de momentos de terror, acontecidos em um porto distante, a pobre Lucy encontrou seu fim. Neste momento, não podendo mais negar o pandemônio que os cerca, Van Helsing revela-os seus conhecimentos sobre um mundo sombrio e que poucos conhecem, onde criaturas das trevas caminham entre os humanos, e foram elas que tomaram deles a jovem Lucy. Somo-nos introduzidos, então, ao conceito do vampiro, uma criatura fria, conquistadora, imortal, metamorfa, com o poder de dez homens, capaz de transpor imensas distâncias, algo demoníaco e que é movido pela sede de sangue e de poder.
Assim, percebendo que este monstro pretende se apoderar do novo mundo, permeando a terra com sua podridão, o grupo se une com o intuito de expurgar esse mal. Grandes maquinações são feitas para impedir que a criatura se estabeleça e uma caçada frenética se inicia, culminando no fim do monstro ou na derrocada de nossos bravos defensores.
O livro possui uma estética gótica que aprecio muito, além da boa construção de personagens, ótimos arcos narrativos e uma história que realmente captura nosso interesse. Apesar de possuir sua versão física, esta é a segunda vez que ouço o áudio livro da Ubook, que além de muito imersivo, com trilhas sonoras e diferentes dubladores para cada personagem, ainda é gratuito. Particularmente, acredito que dá um tom mais divertido do que a pura leitura silenciosa. Também gosto muito das relações construídas entre nosso grupo de personagens, que é tão lisonjeira e inquebrável, que mais parece completamente apaixonada. Eles estão sempre prontos para lamber os pés uns dos outros se precisarem, um pouco como Artur e seus cavaleiros da távola redonda. As subtramas que permeiam a obra também se fazem muito interessantes. A trajetória do louco Renfield, no manicômio de John, o caso das crianças que sumiam pela noite, o inexplicável cão negro, que rondava a região, e como tudo se interliga aos planos nefastos de Drácula.
Uma história que se saiu tão bem, que criou um grande ícone da cultura pop, em diferentes âmbitos da arte, principalmente na literatura e no cinema, fazendo-se agora, conhecido por todos, mesmo por aqueles que não sabem do livro que o originou. Eu até cheguei a ler uma obra de um parente do próprio Bram Stoker, intitulada “Drácula: O Morto-Vivo”, que se dizia uma sequência direta do livro. Mas eu não sei se o parente dele simplesmente só não possui talento nenhum e decidiu se apoiar no imenso nome que o precedia, ou se ele acreditava realmente estar continuando o trabalho, mas por Deus! Eu queria poder apagar a memória que tenho daquela leitura. Nunca vi um exemplo tão vívido de uma história miserável de tão ruim. Em contrapartida, li “Pacto de Sangue”, de S. T. Gibson, um livro curtinho da Darkside Books, que é uma ótima releitura da história do vampiro e um bom exemplo de como explorar algo sem perder sua essência.
Enfim, sinto que estou me delongando demais. Peço perdão, adoro o assunto. Espero que tenha gostado deste post, caro leitor. Se sim, deixe uma curtida e um comentário. Se inscreva na minha correspondência, para sempre ser avisado quando eu fizer um post novo. E não se esqueça, nada pode te atingir enquanto o sol raiar no céu.
Adeus, querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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