Muito conhecimento nem sempre é o bastante, em O Carniceiro, de Alaina Urquhart

Apesar do conhecimento sobre crimes e sobre criminosos ser necessário para escrever livros do gênero de suspense policial, aqui vemos um ótimo exemplo de como obter tais conhecimentos não te faz um bom escritor do assunto. Mas, caro leitor, caso você acredite no contrário, terei de provar, por meio de argumentos, o ponto no qual quero chegar.
No livro “O Carniceiro”, publicado em 2023 por Alaina Urquhart, co-apresentadora do Morbid, o podcast de True Crime (crimes reais) mais popular do mundo, vemos que, até quando se possui muito conhecimento sobre o reverenciado mundo do crime, isso ainda não o capacita para ser um bom escritor. Muito conhecimento bruto e pouco talento literário. Não quero, de maneira alguma, acabar com o sonho de uma autora, e de qualquer forma, nem poderia, pois, apesar dessa ser sua primeira obra publicada, evidenciando sua inexperiência no mundo da escrita, ela foi surpreendentemente considerada como um best-seller pelo The New York Times (algo que me faz questionar a capacidade crítica deste jornal tão renomado).
Mas falemos da obra, para que você possa entender o que quero dizer quando afirmo que, mesmo tendo a informação e seguindo quase toda a estrutura padrão dos suspenses policiais, ainda é possível se destacar por uma escrita fraca e uma história mal desenvolvida.
Passando-se em Nova Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos, o mesmo cenário do filme “A Princesa e o Sapo” da Disney, conhecemos Wren Müller, uma patologista forense que se envolve demais com seus pacientes. Ela gosta de pensar que dá voz aos mortos, ajudando-os a falar o que ainda precisam e não puderam, e assim, ela auxilia nas investigações dos crimes dos quais essas pessoas foram vítimas. Em contrapartida à ela, temos Jeremy, um assassino em série que gosta de caçar suas vítimas como se elas fossem as presas de um predador, correndo nos famosos pântanos da Louisiana.
As narrações dos dois fazem uma enorme antítese, pois enquanto ela se desdobra tentando encontrar algo em seus pacientes que delate o monstro que perpetrou tal crime com eles, uma tarefa dificílima, já que o criminoso parece ser extremamente experiente, e não apenas não deixa nenhuma prova, como ainda deixa sinais para troçar da polícia e de quem quer que o esteja investigando, ele narra as minúcias de seus crimes, as caçadas que institui em sua grande propriedade, como captura suas presas, e os prazeres e agonias que o perpassam em todos esses processos.
Temos uma reviravolta, que mostra que Wren não é uma narradora confiável, pois sabia de algo que não nos foi contado e que muda por completo o ritmo da investigação e nosso ponto de vista em relação à tudo que Jeremy conta, culminando em sua descoberta, e em um confronto, gerado pela necessidade de fugir e pelo fato de ele claramente estar caçando a patologista. Tal embate, planejado pelo assassino e regado de muitos oficiais de polícia, acaba em um final inesperado, que nos deixa com um sentimento de incompletude.
Você deve pensar, caro leitor, “nossa, que resenha rápida”, mas é isso mesmo. Um livro de quase trezentas páginas e é só isso que tem. Não acredito que a história seja ruim, só é extremamente mal executada. A escritora não sabe dar profundidade, parece que todos os personagens são planos, superficiais e básicos. Você não chega a realmente conhecer alguém e o enredo não sabe se expandir, ele parece fechado em uma caixinha, como se colocasse-nos um cabresto, impedindo-nos de ver qualquer coisa adiante. Os diálogos são no mínimo chulos e a contextualização é inexistente. Também tem o fato de se tratar de um livro de crime que mal aborda o crime. Talvez a autora acredite que isso faz sentido devido ao fato de Wren ser a patologista e não o investigador, mas sinceramente, só formou uma história cheia demais de um vazio pouco atraente. E preciso ainda ressaltar o fato de que ela, até de maneira infantil, acredito, cria um assassino que ela acredita ser o maior gênio do mundo, impecável e intocável, descoberto apenas porque uma de suas vítimas escapou e só continuou viva porque ele permitiu, pois tinha ela na palma da mão para fazer o que quisesse, quando quisesse, criando um tipo de deus do crime, tão excelente em sua maldade que jamais cometeria gafes e nunca seria pego, apenas se assim quisesse. Isso quebra a imersão do livro, pois não dá pra acreditar em algo tão perfeito assim, podendo existir apenas no mundo das invenções. E ele nem é tão brilhante assim, não chega nem aos pés de um Hannibal Lecter, da trilogia de Thomas Harris, mas faz-se tão primoroso apenas pelo poder de ser o antagonista, como quando um personagem faz algo impossível, mas ele consegue, não porque é capaz, mas porque é o protagonista da história. Coisa que não funciona no mundo dos suspenses policiais, pois estes trabalham muito com a verossimilhança dos fatos, para sempre tornar a história o mais real possível.
Como pôde observar, caro leitor, tenho muito para dizer dessa obra. Tudo de ruim, porque nada salva. Pelo contrário, me provou apenas que até quando se sai do padrão narrativo, que já se tornou cansativo e repetitivo, pode-se fazer uma história demasiadamente massante.
Espero que tenha gostado da resenha e que eu possa ter te salvado de ler essa bomba de livro. Caso sim, deixe uma curtida e um comentário. Assine minha correspondência, assim você sempre será avisado quando eu fizer um post novo. E lembre-se, caro leitor, há livros melhores para se ler. Não desista.
Adeus, querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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