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Vale a pena trair seus princípios pela beleza de uma mulher?, em A Grande Rainha, de Marion Zimmer Bradley

  • Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
    Ana Julia Carvalho
  • 4 de mar.
  • 10 min de leitura

Se vem me acompanhando, caro leitor, você deve se lembrar da resenha que fiz sobre o primeiro livro de As Brumas de Avalon, A Senhora da Magia. Caso não tenha lido, é interessante que o faça primeiro, para entender direito essa resenha. Pode acessá-la por esse link: https://www.apenaeopapel.com/post/as-predetermina%C3%A7%C3%B5es-inquestion%C3%A1veis-do-destino-em-a-senhora-da-magia-de-marion-z-bradley


Este livro, A Grande Rainha, é o segundo de As Brumas de Avalon, publicado em uma data desconhecida, porque eu procurei e procurei e não achei em lugar algum. E apesar de ser um livro relativamente curto, me fez passar raiva em demasia. Então, apesar do que você provavelmente esperava, vou surpreendê-lo ao passar a maior parte dessa resenha escorraçando uma personagem, apenas porque ela merece. 


Relembrando o final do livro anterior, terminamos com uma Morgana grávida de seu irmão Artur, após o ritual do Grande Casamento, indo embora de Avalon, direcionando-se à corte de Lothian, para sair do controle das decisões da Senhora do Lago.


Apesar de Morgana ser, a princípio, o centro e a narradora principal de nossa saga, este livro, em específico, pretende focar em Gwenhwyfar (para a minha infelicidade). 

Dividindo entre ambas, viajamos pela visão de duas mulheres completamente diferentes. Normalmente, eu poderia explicar a obra de uma maneira mais básica, resumindo os fatos cruciais e expondo o objetivo do personagem. No entanto, além de ter duas personagens, este livro não é movido por objetivos a serem perseguidos, e sim por acontecimentos, que irão culminar em um final que não nos será revelado até que chegue. Por isso ele é tão dificultoso de se resenhar sem narrar cada arco de acontecimento, mas abordarei-os de maneira mais corrida para focar, talvez, na reflexão que eles nos trazem.  


Apesar da maioria das mulheres da época se casarem muito mais jovens, Gwenhwyfar tem o que eu poderia chamar de sorte, e só é dada em matrimônio quando já atingiu a maioridade. Filha mais velha do rei Leodegranz, Gwenhwyfar é, apesar de sua imensa ingenuidade, tolice e ignorância, exacerbadamente admirada por sua beleza estonteante. Sua cabeça é permeada por medos quase paralisantes que a fazem ter pavor de tudo e qualquer coisa que possa atingir seu mundinho. Acredito que hoje em dia, ela seria diagnosticada com agorafobia, mas na época eram consideradas apenas futilidades da mente de uma mulher. Algum tempo, não muito, após a coroação de Artur, Lancelot vai ao reino do pai da moça para pedir que ele ceda cavalos (que aparentemente são os melhores que há) e soldados para ajudar nas eternas batalhas contra os saxões. E apesar de ele e Gwenhwyfar terem uma paixão um pelo outro (paixão pela aparência mesmo, porque eles mal trocaram dois diálogos), Lancelot aceita levar a mensagem para Artur de que o rei só aceitará o pedido do chefe de cavalaria do Grande Rei se ele, Artur, desposar sua filha como condição. E é assim que a união deles é feita, para desgosto da moça, que queria casar com o cavaleiro, que não seria uma possibilidade por ser um filho bastardo, sem títulos ou posses. Mas Artur, apesar de ter interesse no acordo por causa do poderio militar, faz tudo o que pode para agradar a amaldiçoada da mulher dele. Que além de ser estupidamente linda, também é muito desprovida de inteligência, uma religiosa fervorosa que mal sabe limpar o próprio traseiro mas acha que sabe alguma coisa da vontade de Deus, e acredita que precisa expurgar e ou matar todos os pagãos da Bretanha, apesar de Artur ter um acordo de reinar para todos e não apenas para os cristãos, e também acha que é a mulher mais importante do universo, não se importando de ser extremamente hipócrita, querendo ajuda de artimanhas pagãs, porque, diferente dos outros, ela pode. Enfim, relevando o fato de que ela é o ser mais irritante do mundo, e como você pôde observar, caro leitor, eu a odeio, a história que a permeia, juntamente com Artur, seu marido, e Lancelot, o alvo de sua paixão e desejos, pode, acredito eu, acabar em grande desastre. 

Por anos e anos, Gwenhwyfar tenta engravidar de Artur e cumprir seu maior dever como Grande Rainha, que é dar um herdeiro para o trono da Bretanha, enquanto tenta resistir ao seu grande anseio por Lancelot. Com a pressão presente nas expectativas de todos ao redor, a mente dela vai se deteriorando mais com o tempo, deixando-a paranóica, com crenças de que Deus a está castigando por desejar o melhor amigo e primo de seu marido, por permitir que Artur conceda a existência das crenças e práticas pagãs em seu reino, por deixar que as opiniões da Senhora do Lago e dos druidas tenham relevância nas decisões reais, e por assim vai. Na verdade, a parte do desejo adúltero é o de menos, porque essa hipócritazinha é bem auto indulgente (porque ela merece ser poupada por Deus, os pagãos não). Ela também, apesar de gostar de Morgana, que chega a ser sua dama de companhia por um tempo, passa a demonizá-la por completo, tendo pesadelos com ela e não permitindo de maneira alguma que Artur case-a com Lancelot, como era o desejo dele. E ela cogita casar o cavaleiro com outra mulher, na tentativa de parar de pensar nele (só não pode ser a Morgana, porque a Morgana é um monstro sujo, na cabeça dela), mas é claro que não dá certo, porque ela o  quer apenas para si. E que fique claro que Gwenhwyfar e Lancelot são bem óbvios, eles nem tentam disfarçar, e apesar de ser um assunto que ninguém verbaliza, todos percebem como os dois se olham. 

Em dado momento,  quando Artur passa meses em recuperação devido a um ferimento de batalha, ele chega até a dizer que o problema deve estar nele, já que até com as outras mulheres com as quais ele se relacionou, nenhuma nunca engravidou (ele continua não sabendo de Morgana). E por isso diz que, se ela aparecesse grávida de um herdeiro para ele, ele não a questionaria sobre, apenas aceitaria. Ainda mais se fosse de seu tão amado amigo, Lancelot. Gwenhwyfar não entende como ele pode permitir que ela o traia, mas é tão estúpida que não percebe que a concessão é apenas para engravidar, e não para manter um caso com o cavaleiro. Mas, acreditando se tratar apenas de tolices proferidas no momento, ela não o faz, e restabelece suas esperanças quando, no leito de morte, no convento em que estava, Igrainne conta que a moça está grávida, com o uso da parca Visão que lhe restou. E então, se sentindo com o rei na barriga (nesse caso, de maneira literal), ela passa a achar que o mundo tem que parar por si. E no mesmo período, os saxões voltam para a costa, desta vez com um contingente muito maior, e a guerra que tanto esperavam, que seria a vitória da Bretanha ou sua tão temida dominação, finalmente chegou. Artur transforma Caerleon, a capital, em um base de guerra, e pretende mandar todas as mulheres e cidadãos indefesos para Camelot, perto do reino do pai da moça, onde poderão ser facilmente protegidos da guerra. No entanto, a Grande Iditota da Bretanha decide que precisa ficar perto de seu rei, e não aceita ser levada, atrapalhando completamente as tropas, que terão que proteger o castelo com ela dentro. Além de, após anos e anos insistindo, justo nesse momento, ela consegue finalmente convencer Artur a guardar o estandarte do Pendragon que ele carrega, e usar um que ela mesma costurou, com uma cruz, para simbolizar que a nova Bretanha que nascerá após a guerra será uma Bretanha inteiramente cristã. Isso causa a perda de muitos lutadores da tribo e do povo de Avalon, que era representado pelo símbolo do dragão e pelo juramento à Ilha Sagrada. E Artur aceitou traí-los apenas para saciar os caprichos de sua tola esposa. 

Meses se passam entre tempos difíceis e batalhas menores, e com apenas quatro meses de gestação, Gwenhwyfar passa tanto ódio, por ter tanto nojo de pessoas deficientes e de pagãos, ambos representados pelo druida Kevin que veio entretê-la com sua harpa, que ela aborta o feto, e ainda acusa o músico de tê-la amaldiçoado. Mas isso já era de se esperar, já que ela havia perdido o bebê em todas as suas gestações anteriores. Todavia, tempos após a vitória de Artur sobre os saxões, da volta de Morgana para a corte, e do início do caso entre Gwenhwyfar e Lancelot, que acredita não se tratar de traição se ela não consuma o ato sexual, e fica só trocando beijos e carícias com ele, a moça pede à ex-sacerdotisa de Avalon que lhe dê algum feitiço para que possa gerar o herdeiro. E apesar dos avisos de Morgana de que talvez as coisas não agissem como ela esperava, no fim, Artur repete a proposta, mas dessa vez na frente de Lancelot, e os três realizam uma relação em conjunto (para fingir que é um mistério quem a engravidou. Muito cristão da parte deles, né), que representa o amor que eles sentem uns pelos outros. (ENFIM, sem comentários) 


Obra de Edmund Blair Layton, representando a rainha Gwenhwyfar e sir Lancelot. 


Já no lado de Morgana, ela começa na corte de Morgause, sua tia, em Lothian, com a gravidez em estado avançado. Apesar de não querer, ela continua com a gestação, temendo o dia em que sua prole nascerá. Mas o dia chega, e ela tem um parto muito difícil e doloroso, que quase a mata, e que confirma a ideia de que ela não terá outros filhos, pois não sobreviverá a mais um. Morgause, apesar de tratá-la muito bem e com o carinho para com a filha que nunca teve, é convencida por seu marido de que o filho de Morgana estaria mais próximo do que os filhos deles do grande trono, e que seria melhor se ele não sobrevivesse. E quando a sacerdotisa finalmente dá a luz, ela é preenchida de amor e decide amar seu filho, mas Morgause o afasta dela, decidindo que se criá-lo como seu próprio filho, este não ficará na frente dos seus. E infelizmente dá certo, e Morgana, apesar da tristeza, se convence de que ser criado por sua tia é mesmo o melhor para a criança, pois ninguém nunca poderá saber de sua origem. 

Assim, ela parte da corte de Lothian, rumando para Caerleon, onde é forçada a se juntar à corte da Grande Rainha, que ela descobre ser Gwenhwyfar, aquela mesma bela criaturinha que apareceu perdida em Avalon e roubou-lhe para sempre o coração de seu amado Lancelot. Apesar da eterna antipatia nutrida pela jovem, Morgana consegue se apegar à ela e ao seu jeito que arrebata todos à sua volta. E assim como para todos, não lhe passa despercebido que a paixão entre a rainha e o cavaleiro ainda arde, assim como, infelizmente, a dela por ele. Convencendo-se de que tenta evitar uma grande catástrofe, ela pretende conquistar Lancelot, e chega a quase se relacionar com ele duas vezes, mas no fim, ele nunca a deseja de verdade, e apenas tenta se distrair da dor de não possuir Gwenhwyfar. Finalmente cansada de se humilhar pela paixão que nutre pelo primo, Morgana decide partir da corte do irmão, e voltar para Avalon. No entanto, após anos fora, descumprindo os princípios e juramentos de uma sacerdotisa e tendo fugido das pretensões da Deusa para ela, a barca de Avalon não vem quando ela deseja, e com vergonha de chamá-la, ela decide contornar a floresta, e entrar na Ilha por uma passagem secreta, conhecida por poucos. Mas, quando deveria se deparar com as brumas, ela encontra apenas um lugar totalmente desconhecido, onde se depara com um estranho que a leva para uma corte, onde ela bebe e come aquilo que lhe oferecem, enquanto eles prometem que no dia seguinte a guiarão pelo caminho. E assim, Morgana fica, presa no mundo das fadas. Ela contava apenas com as duas possibilidades mais comuns, a Ilha dos Padres, e a Ilha Sagrada de Avalon, que se sobrepõem, mas não com o terceiro lugar que ocupa o mesmo espaço, mas em outro plano, a terra das fadas. E para aqueles que têm o azar de parar lá, não se pode beber e nem comer nada que o derem, pois assim eles os encantaram e os prenderão lá por quanto tempo quiserem. E o tempo lá também age de outra maneira, iludindo-nos, fazendo com que poucos dias equivalham à anos no mundo real. 

Após o que ela achava não passar de uma semana, Morgana ouve um grito, a voz de Raven, uma sacerdotisa de Avalon que fez voto de silêncio eterno, e que fala apenas quando a Deusa à usa para mostrar profecias, romper a barreira entre mundos. E ao ouvir a profecia, ela desperta do transe induzido por aqueles seres, e foge na calada da noite, se é que a noite existia naquele lugar onde o céu nunca mudava de cor, e retorna ao mundo humano. Ela ainda não sabia, mas mais tarde descobre que nos poucos dias que passou naquele lugar, cinco anos se passaram no mundo real. Completamente perdida e esfarrapada, com vergonha de ver a Senhora do Lago, Morgana decide voltar para a corte de seu irmão. Pelo caminho, ela encontra uma terra silenciosa, com muitos pontos devastados por uma guerra que ela nem imaginava ter acontecido. É na estrada, entre a exaustão e a fome, que ela encontra o druida Kevin, cavalgando para a capital, que ele revela ter mudado para Camelot, após a vitória contra os saxões. Juntos, e desenvolvendo uma relação casual baseada no respeito mútuo, eles seguem para a corte. Lá, Morgana surpreende à todos, por sua volta após tantos anos, e com o mistério de seu paradeiro, que não se encontrava em nenhum dos lugares que achavam que poderia estar. Mas ela se permite, nesse final, dar um descanso para si mesma, enquanto vigia a profecia caótica de Raven, e tenta ajudar Gwenhwyfar, que não aceita sua recusa, e dá a ela um objeto encantado, que a mesma joga fora no primeiro sinal de que as coisas vão dar certo. (Veremos se isso trará consequências mais tarde).


Podemos ver que nesse livro, Morgana se coloca em segundo plano, passando por esses anos como em um limbo, onde ela apenas deixa que a vida a leve para diferentes lugares, mas sem possuir grande importância no enredo de nossa história. Mas eu clamava para que a narração voltasse para ela, pois eu particularmente não gostaria nem de existir no mesmo mundo que Gwenhwyfar, quem dirá estar dentro da cabeça dela. Por Deus, a mente dela possui mais dejetos que uma latrina. E se o livro queria que eu torcesse pelo romance dela com Lancelot, passou muito longe. Eu estava mais torcendo para que eles explodissem juntos (Lancelot é outro que todo mundo gosta no livro mas ele é insuportável). E também vemos como os homens fazem loucuras pela beleza de uma mulher, traindo os súditos de seu reino, quebrando promessas, aceitando a possibilidade de fugir com a esposa de seu melhor amigo, etc. E ainda se convencem de que é por amor puro e pleno, não uma questão completamente superficial. 


Mas enfim, é sempre bom ver grandes exemplos de ignorância e negacionismo. Vamos ver o que o próximo livro, O Gamo-Rei, nos reserva. Realmente não sei o que esperar, e ele é o maior dos três, com quase 500 páginas. 

Por enquanto é isso, caro leitor. Espero que tenha gostado e que volte na semana que vem para ler a próxima resenha. Se gostou, dá uma curtida, faça um comentário, assine minha correspondência, isso me incentiva muito a continuar esse trabalho. 


Adeus, Querido leitor. 


Com amor, Ana J. Carvalho.


 
 
 

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