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O mal que cresce nas sombras, em O Gamo-Rei, de Marion Zimmer Bradley

  • Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
    Ana Julia Carvalho
  • há 56 minutos
  • 9 min de leitura


Espero que lembre, caro leitor, que fiz a resenha dos dois livros anteriores a esse, componentes da saga “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley. Mas, caso tenha esquecido, segue aqui o link para a leitura da resenha do primeiro e do segundo livro:


A Senhora da Magia:


A Grande Rainha:


Com a leitura do terceiro livro desse compêndio, preciso revelar que me surpreendi com uma descoberta. Já tinha noção de que a saga possuía quatro livros, no entanto, erroneamente acreditei que nessa edição de “As Brumas de Avalon”, apenas os três primeiros livros residiam. Estava lendo o terceiro livro, este do qual vos falarei agora, e acreditava que ele seria o maior dos três, com o dobro do tamanho dos dois primeiros, entretanto, espantei-me quando subitamente a página se dividiu, delimitando o fim do terceiro livro e o começo do quarto, “O Prisioneiro no Carvalho”, portanto, teremos mais uma resenha antes do fim dessa história. 


No final do segundo livro, vimos a volta de Morgana, à corte de Artur, do País das Fadas, e a noite de adultério, disfarçada pela luxúria, entre Gwenhwyfar, Lancelote e Artur, com o pretexto de gerar um herdeiro para o trono, não importando quem fosse o pai. Já no começo do terceiro livro, “O Gamo-Rei”, começamos em um lugar diferente, o reino de Lothian, tendo passado pouco tempo. Nos é mostrado a Rainha Morgause, tia de Morgana e Artur e irmã de Viviane, a Senhora do Lago, e Igrainne. Agora que o rei Lot faleceu, a mulher passou a reinar sozinha, com a administração de seu filho Agravainne, pois o mais velho, Gawaine, recusa-se a sair do lado de Artur, e prefere permanecer como seu braço direito, em vez de se tornar rei das terras de seu pai. Morgause estava criando Gwydion, o filho de Morgana, que já contava com cinco anos de idade. Um menino incomparavelmente inteligente e calculista, Gwydion parecia ter até um tipo de malícia em si, mas talvez fosse apenas a impressão da personalidade de uma criança que entende muito mais do que deveria. Após forçar sua mãe de criação a se arrumar para um festejo imaginário, Morgause se surpreende ao receber a visita inesperada de Viviane, Taliesin (o antigo Merlim da Bretanha) e Ninianne, a filha mais jovem do ancião (muito jovem mesmo, ela deve ter uns dezoito anos para menos, ele teve ela muito velho). Assim, a rainha descobre que seu filho adotivo já possuía a visão da mãe, mas de maneira preocupante, escondeu isso dela, em vez de, como uma criança normal, contar que via coisas (por isso ele parece ter uma sagacidade quase vilanesca). Viviane conta que futuramente irá levá-lo para Avalon, pois este será criado pelos ensinamentos dos druidas, para que possa assumir seu futuro na profecia que dizia que o jovem gamo derrotaria o Gamo-Rei. Artur não parece mais corresponder a Avalon, tornando seu reinado inteiramente cristão, e se ele não retornar a esta união, a Ilha Sagrada o tirará do trono assim como um dia o colocou nele. Assim, eles partem, para um dia, não muito distante, retornar para levar a criança.


Que fique claro que esse livro é sobre Gwydion, mas ele é tão estrategista, que aprimora-se longe de nossos próprios olhos, fazendo como o título deste post e usando das sombras para aproximar-se discretamente de seu futuro. Portanto, serei breve nos acontecimentos de nossos outros personagens, apesar de ocuparem quase o livro inteiro. 


O tão aguardado reencontro entre Morgana e Viviane, que demorou tantos e tantos anos para acontecer, finalmente se sucede, pois a Senhora do Lago determinou que a cerimônia anual de Pentecostes de Artur seria a ocasião perfeita para que ela cobrasse dele a lealdade à Avalon, como último recurso antes de iniciar o plano de sua derrocada. Mas os momentos de emoção entre as duas duram pouco, pois, durante o festejo, quando a Grã-Sacerdotisa começa sua solicitação ao rei, uma tragédia acontece, com Viviane sendo brutalmente assassinada pelo irmão adotivo de seu filho, cancelando a comemoração e inserindo todos em um misto de tristeza e desespero. 

Desde o livro anterior, o auto intitulado meio-irmão de Gwenhwyfar, Meleagrant, solicitava o trono do País do Verão, já que o rei Leodegrance havia falecido, e Gwenhwyfar e ele (se é que ele era mesmo filho bastardo do falecido rei) eram os únicos herdeiros vivos. E depois de ter seu pedido negado, o bárbaro dominou o reino mesmo assim e solicitou, como uma trégua, que sua irmã fosse visitá-lo. Surpreendentemente, apesar de seu pavor extremo de deixar seu porto seguro, com Artur longe, em uma missão, a tola rainha aceita viajar para encontrar o parente. Como eu já disse anteriormente, sendo a imbecil que ela é, pretendia viajar apenas com uma criada e um camareiro, mas Morgana, mesmo que ainda muito abatida pelo luto, sabia que nada de bom viria desse encontro e pediu que ela não fosse, ou que pelo menos esperasse Lancelote para acompanhá-la, mas ignorando-a, a rainha apenas aceitou levar um grupo de protetores com ela. Mas não sendo tão estúpido quanto a irmã, Meleagrant separou-a de suas tropas, prendeu-a no castelo mal cuidado e anunciou suas intenções de fazer dela sua esposa e mãe de seus filhos, pois assim, como consorte da rainha do reino, ele seria reconhecido como o verdadeiro rei e ninguém poderia tirá-lo dele ou reclamar a mulher de volta. E para nosso horror, ele a coloca em uma situação de humilhação, deplorável e decadente. A agride para submetê-la e a violenta para engravidá-la, em completa segurança de que não virão atrás dela e que se vierem, serão massacrados. Entretanto, é no meio da desesperança, motivada pela demora de um dia, que nos aliviamos quando Meleagrant é morto, revelando Lancelote, que veio salvar sua amada. Com o declínio do terror que passou, os dois finalmente cedem a consumar o amor que por tanto tempo tentaram resistir (na cabeça deles, né, porque não resistiam a nada). 

Um dia, enquanto Morgana conversava com Elaine, a prima de Gwenhwyfar e filha do rei Pellinore, a jovem diz como sempre amou Lancelote e que era muito injusto que ele não tivesse olhos para ninguém além da Grande Rainha e que queria casar-se com ele. Pensando no quanto os dois estavam próximos ultimamente e que se Artur voltasse e descobrisse o caso entre sua amada e seu melhor amigo, a corte poderia ruir, então a sacerdotisa propõe à amiga que elas façam um plano e que assim, Lancelote seria obrigada a casar-se com Elaine. A jovem, apesar de receosa, aceita, e promete, como pedido por Morgana, que a primeira filha do casal deverá ser mandada à Avalon para virar uma sacerdotisa. Pouco depois, o plano é posto em prática, fazendo, por meio de magia, com que Lancelote fosse para a cama com Elaine, acreditando se tratar de Gwenhwyfar, e quando os dois são pegos pelo pai da moça e muitas outras testemunhas, o cavaleiro é obrigado a desposar a princesa, pois havia maculado a honra da mesma. Tirando-o, assim, dos braços da rainha. 

Pouco depois, após uma intriga, Artur descobre, por Gwenhwyfar, que ele possui um filho, que Morgana a havia revelado, e ao chamá-la para confirmar, o casal descobre se tratar do filho dele com a própria Morgana, horrorizando Gwenhwyfar, que não fazia ideia do fato. E como sempre, aplicando sua lavagem cerebral religiosa e hipócrita em seu marido, a rainha o convence a fazer penitência extrema, para que ele possa ser minimamente, a medida do possível, perdoado por esse pecado, e que assim, Deus poderá finalmente dar filhos a eles dois (pra ela tudo e qualquer coisa que eles tenham feito é o motivo para Deus os estar punindo com a falta de herdeiros). 

No mesmo dia, eles teriam uma comemoração e é lá que Morgana conhece Accolon, o segundo filho do Rei Uriens de Gales do Norte, e pela primeira vez, ela parece capaz de gostar de alguém, diante do fato de nunca ter cessado sua paixão por Lancelote. E mais tarde, quando parece que ele a propôs em casamento e Artur lhe pergunta se devia permitir que o homem que o consultou sobre, a desposasse, ela aceita, sem saber que, na verdade, quem havia pedido sua mão à Artur foi o próprio rei Uriens, pai do jovem que a interessou. Assim, sem poder voltar atrás, Morgana foi inserida em uma união com um homem velho, que apesar de ser muito gentil e atencioso com ela, além de livrá-la do fardo de ter mais filhos, não era quem ela queria e a vida doméstica não a agradava. Anos se passam, Gwydion cresce em Avalon, que agora tem como Grã-Sacerdotisa, Ninniane, na falta de Morgana, Lancelote tem filhos com Elaine e a própria Morgana continua presa como uma esposa. Mas com a chegada do solstício de verão, a mulher finalmente consegue se reconectar com sua deusa e com suas crenças, relembrando sua missão no mundo e decidindo retornar aos hábitos de sacerdotisa (tomando Accolon como seu sacerdote e amante), para, na hora certa, após restabelecer a lealdade do trono da Bretanha à Ilha Sagrada, poder, finalmente, regressar à Avalon.

Nervosos com a demora de Morgana, Ninniane (que se tornou amante de Gwydion, e não sabe como ajudá-lo em seu destino), que apesar de ser a filha do, agora, falecido Taliesin, desespera-se, pois possui uma fraca visão e não é adequada, e nem foi a escolhida, para ser tornar a Senhora do Lago, e apenas o fez pela falta de opção, e Kevin, que encontra-se perdido em relação ao destino da Ilha Sagrada. Eles recebem Gwydion, agora crescido (uns quinze à dezoito anos, acredito), após o mesmo ter terminado seu treinamento druida, partido e se alojado na corte de um dos saxões que agora vivem em paz com Artur, tornando-se um lutador hábil mas progredindo sem o conhecimento de todos, mentindo sobre sua identidade. Agora, chamam-o de Mordred, que significa “conselho ruim”, na língua dos saxões, pois o mesmo é um grande estrategista que é mal para seus inimigos. E é decidido que, para atingir sua sina, será necessário que o mesmo realize o Grande Casamento, para que assim, posteriormente, se torne o Gamo-rei. E apesar do ritual ser executado com uma virgem, os dois decidem que Ninniane, apesar de não o ser, será a representação da Deusa, e futuramente veremos se essa troca terá alguma consequência. 

Morgana, tendo ciência de que, pelo fato do primogênito de Elaine e Lancelote ter sido consagrado herdeiro do trono, já que o rei não possui herdeiros conhecidos, a primeira filha de Elaine atingiu a idade esperada, e viaja para o reino da mesma, a fim de cobrar sua dívida. Lá, a Rainha resiste muito, demonizando Morgana e toda a Ilha Sagrada, em detrimento de sua moral cristã, mas sem mais poder resistir, e sendo tranquilizada pela sacerdotisa que garante que a menina terá uma vida de instrução, superior a de todos os outros, Elaine entrega sua filha, Nimue. Uma garotinha doce e inteligente, que se interessa muito pelos conhecimentos dados às sacerdotisas, que é levada em uma longa viagem até a Ilha de Avalon. Apesar da tristeza por deixar a família, Morgana e Nimue se conectam muito, como a filha que ela nunca teve, e a menina, como neta de Vivianne, terá um futuro brilhante como a Senhora do Lago. 

Na ilha, fortalecida pela lembrança de seu poder, Morgana reavê sua união com Raven, a profetisa de Avalon, e se acerta com Ninniane, que ela nunca havia conhecido, honrando a posição da mulher no trono e prometendo que voltará, como pedido pela própria, para assumir seu lugar de direito como Grã-Sacerdotisa, mas apenas depois de ter cumprido sua missão para com a Deusa. Lá, também, ela conhece seu filho, já crescido, mas o mesmo já não a vê como mãe, como ela nunca o foi, e apenas como sacerdotisa, pedindo sua benção e ajuda no futuro dele. Triste, Morgana aceita, contemplando que foi a essa relação que suas escolhas levaram. 

No fim, Gwydion volta a Lothian para visitar Morgause e enquanto bebe para afogar o peso de seu destino, ele admite que não gostaria de carregar esse fardo, que conheceu Artur, sob disfarce, e que entendeu porque todos o amam e são leais a ele, e que queria ter um pai e a simplicidade de amar e ser fiel àquele homem tão admirável, mas que o destino traiçoeiro determinou que ele deve matá-lo, acabando com a paz e assumindo seu trono, fazendo da desonra e do desgosto, seus únicos companheiros. 


Não que eu seja a maior fã que existe de Artur, afinal ele é super suscetível àquela energúmena da mulher dele e por ter traído Avalon, mas o livro é muito perspicaz ao nos deixar com uma sensação ruim ao ver os planos, que o mesmo nem imagina, de sua derrota, como se fossemos coniventes com ela, sem fazer nada para avisá-lo ou impedi-la. As trevas que envolvem Gwydion são tão obscuras, que nublam suas intenções até de nós, leitores, que deveríamos ser oniscientes. E como acredito ser essa a intenção da autora, ouso dizer que ela a executou com maestria. Aguardo ansiosamente pelo desfecho desta história e espero-o, caro leitor, para presenciá-lo comigo. 


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Adeus, Querido leitor. 


Com amor, Ana J. Carvalho.


 
 
 

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