top of page
Buscar

O horror das partes do corpo humano, em Contos fantásticos do século XIX, de Italo Calvino

  • Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
    Ana Julia Carvalho
  • 15 de abr.
  • 7 min de leitura

É no mínimo interessante, caro leitor, como os dois contos sobre os quais falarei a seguir, têm em comum o apelo pela produção do efeito aterrorizante por meio de coisas tão comuns como as partes de nossos próprios corpos. Além de ambos se utilizarem de um vocabulário muito rebuscado, repleto de firulas que trazem certa enrolação para as histórias e até um pouco de confusão, pois, talvez por se tratarem de enredos do século XIX, eu não entendi basicamente nenhuma das referências as quais os autores faziam alusão. E nem o contexto era capaz de me levar ao possível significado daquelas palavras difíceis. Enfim, tive que ignorar muito da escrita, o que é uma infelicidade para mim, já que adoro escritas rebuscadas de maneiras inteligentes, e focar apenas nos desdobramentos do enredo. Devido a isso, acredito que essa resenha será muito mais curta do que o tamanho ao qual já os acostumei. Mas nunca se sabe. 


No quinto conto de nosso livro, temos o título “O elixir da longa vida”, de Honoré de Balzac, publicado em 1830. Situado em um palácio em Ferrara, na Espanha, vemos a história de don Juan Belvidero. Filho de um nobre comerciante, don Juan se esbanjava de tudo que as riquezas do pai o proviam, e desejava constantemente a morte do mesmo, para que pudesse aproveitar ainda mais de sua fortuna e possuir o título do ancião. No entanto, não sei se se tratava de uma ironia (o que pode muito bem ser, pois o conto é bem sarcástico), mas o que é dito, me faz pensar que o velho Belvidero era um bom pai, por isso não vejo o porquê de seu filho ansiar tanto por seu perecimento. E é em uma festa, regada de excessos, antecipando a orgia que logo se iniciaria, que don Juan é chamado por um criado, que tão lúgubre quanto a própria morte, avisa que o senhor da casa está em seu leito de morte. Encaminhando-se para os aposentos do pai, don Juan contempla o homem que tentou lhe dar tudo, que deixou que ele fosse quem era, sem ter grandes deveres e responsabilidades, e que agora se encontrava tão frágil. Após pequenas trocas gentis, que fazem o jovem se sentir culpado pelo desejo sombrio que nutre em relação ao pai, o velho Belvidero releva para seu filho que guardou, para aquele momento, um tipo de poção que o traria de volta a vida e que assim que ele soltasse seu último suspiro, don Juan deveria pegá-la e despejá-la sobre todas as partes do cadáver. Apesar da descrença, o jovem aceita fazê-lo, mas pela falta de explicações do pai, que provavelmente também não entendia as nuances da magia, don Juan fica completamente horrorizado quando, separadamente, as partes de seu pai começam a reviver, como jovens. Um único olho se abre e fica encarando-o, sem fechar, apesar das tentativas do filho do homem de fazê-lo. Dominado pelo medo, ele desiste de reviver seu pai e sepulta-o, daquela forma mesmo, guardando o elixir às sete chaves. 

Ao assumir o título de seu pai, don Juan Belvidero entregou-se para toda a imagem que ele tinha da vida. Se tornou avarento, preferindo mais acumular suas riquezas do que esbanjá-las, além de assumir um desdém absoluto por todos os outros seres humanos na terra, se imaginando talvez acima do próprio Deus adorado em Roma. Usava tudo que lhe convinha e fazia o escárnio de todos aqueles que veneravam coisas que o próprio achava inferior. Casou-se com uma jovem andaluza, com quem teve um único filho e aplicou com eles uma estratégia que garantiria que na hora certa, eles fizessem o que lhes fosse pedido. Não lhes deu ternura, mas uma grande quantia que receberiam com sua morte. E quando esta finalmente se aproximou, fez-se de um pobre arrependido e moribundo, pedindo que seu filho seguisse à risca suas instruções. 

À luz do luar, o jovem passou o elixir no corpo do pai falecido, mas se surpreendeu, após ter umedecido toda a cabeça e chegado aos braços, quando a mão do homem, rejuvenescida, agarrou-lhe o pescoço, e com um grito sufocado, toda a criadagem apareceu, presenciando a ressurreição parcial do senhor da casa, pois, com o trabalho ainda incompleto, o frasco se partiu no chão, evitando que don Juan Belvidero voltasse plenamente à vida. Utilizando-se da oportunidade, o inútil padre da família, decide canonizar Juan Belvidero, tornando-o santo e elevando a si mesmo a um patamar religioso maior. E é na missa de sua consagração que, preenchido pela zombaria em relação à crença de todos aqueles religiosos patéticos, o corpo parcialmente revivido de don Juan Belvidero decide marcar mais ainda aquele dia para todos os presentes, e o que faz ficará gravado com horror na mente de todos aqueles fiéis. 


Eu, particularmente, achei que o fator terror poderia ser mais espalhado pelo conto, e não apenas em um apelo inicial e depois, apenas, nas últimas linhas da história, já que, afinal, o resto do conto é feito inteiramente por floreios inúteis, quase sem acontecimentos, e nada que importe para o enredo. Acredito termos aqui um potencial perdido, pois a escrita do autor possui uma grande qualidade. Bem, não dá para acertar em todas, mas é sempre bom adquirir conhecimento literário, por isso, não reclamarei mais e ainda acho que você deveria lê-lo, para tirar suas próprias conclusões. 


O sexto conto, intitulado “O olho sem pálpebra”, de Philarète Chasles, de 1832, apesar de ser escrito por um autor francês, se passa na Escócia, e se baseia na visão romântica do folclore do país, inspirada por autores como Walter Scott, que escreveu o conto “A história de Willie, o vagabundo”, que vimos na resenha anterior sobre o livro.


O conto nos traz a história de Jock Muirland, um fazendeiro e boêmio, em uma noite de Halloween, em que ele festejava com seu grupo de amigos. Nas terras onde viviam, a ocasião era vista como uma noite onde os seres sobrenaturais caminhavam livremente entre os humanos e aproveitando-se disso, os habitantes do povoado usavam-na para fazer rituais que buscavam prever seus futuros no amor. No entanto, Muirland não intenta participar de tais práticas, pois além ser um cético, ele mais nada quer ter com o amor, após ter amado tanto sua falecida esposa e tê-la perdido. Mas o que nos surpreende, é sua revelação de que ele próprio foi o causador da morte da mulher, pois era tão exacerbadamente ciumento em relação à ela, que ele acreditava ser muito ingênua sobre o mundo, que a moça veio a falecer de desgosto e tristeza. Após um tempo afundado no desespero, o homem passou a ter uma visão incrédula do amor e acreditar que um relacionamento era o mesmo que eterna perturbação e preocupação.

Rodeados por fadas, duendes e outros seres invisíveis, o grupo anima-se com o álcool consumido e juntos executam todos os rituais mais populares entre jovens adultos, menos um deles, que é o mais “perigoso”. Olhando através de um espelho, com uma vela acesa, o indivíduo deveria ver atrás de si, seu futuro pretendente, entretanto, havia a possibilidade de que a superfície refletisse coisas assustadores e completamente indesejáveis, que foi o caso de Muirland, que a despeito do medo de seus amigos, propôs-se a enfrentar o desafio, acreditando que nada apareceria para ele, já que casar passou a ser-lhe uma maldição. Mas, diferente do que ele acreditava, algo realmente surgiu. Uma aparição branca e fantasmagórica, que o olhava com grandes olhos, rodeada de cabelos como o fogo, e quando o mesmo se virou, assustado e quebrando o espelho ao deixá-lo cair, a cabeça o espreitava sob o ombro. Com um grito rompendo a escuridão, todos deixaram o campo, fugindo de pavor por suas vidas. Desamparado, Muirland correu sem rumo, com o espectro perseguindo-o e insistindo para que se casasse com ele. Quis se refugiar na igreja, sobre a proteção de Deus, mas esta parecia estar tomada por chamas infernais, que ele decidiu enfrentar, no auge de seu alcoolismo. E ao adentrá-la, ele encontra um espetáculo. Um tipo de reunião entre seres sobrenaturais, demônios de fogo e coisas que pareciam ter vindo diretamente do inferno. Muirland, cercado de tantos horrores, se surpreende quando vê que a cabeça não mais o seguia, todavia, nada estava terminado. Um tipo de cerimônia iniciou-se, e o fazendeiro viu quando uma bela mulher adentrou o recinto, vestida de noiva, em meio a todo aquele pandemônio. E não qualquer mulher, mas a cabeça que o perseguia antes, mas agora inteira. E influenciado pela bebida, por todos os seres ao redor e pela graciosidade da dama, ele se entrega à loucura e aceita se casar com ela, imaginando que de manhã, tudo isso haveria passado. Contudo, ao acordar e mal se lembrar dos acontecimentos da noite anterior, Muirland se depara com sua nova esposa, deitada em sua cama, fitando-o com seus grandes e belos olhos azuis. Dominou-se de pavor ao perceber que a mulher não tinha pálpebras e por isso não havia forma de fechar os olhos, apenas de olhá-lo, incessantemente. No povoado, ele descobre que já está casado há dias e que uma enfermidade o atingiu após a cerimônia, deixando-o acamado por dias. E apesar de alegar a estranheza de que sua mulher não possui pálpebras e que nunca para de olhá-lo, ninguém o escuta, pensando que encontra-se em estado de insensatez após ficar doente. Sem achar outras formas de fugir disso, Muirland aceita a união, e até se afeiçoa à sua esposa, que é prestativa e gentil, mas é perturbado por longas e exaustivas noites sem dormir, pois não consegue descansar com aqueles olhos sempre fitando-o. 

Um dia, quando sua esposa se ausenta por um pouco mais de tempo, em detrimento à uma visita, o fazendeiro decide escapar, pois não aguentava mais a longa tortura do ciúme vigilante da mulher, e fugindo para as Américas, ele se instala em algum lugar dos Estados Unidos. Lá, acaba se envolvendo com uma tribo indígena, onde salva a vida do líder deles e ganha sua afeição, como um amigo branco. Pouco tempo depois, o chefe da tribo oferece sua filha em casamento para Muirland, e apesar de não querer se unir à alguém nunca mais, o conforto e as boas relações que ele conseguiria com a jovem, além de ser charmosa e prendada, parecem-lhe favoráveis. O fazendeiro faz bem o papel de marido para ela e semanas se passam de calmaria, até que aquilo do qual ele fugia, retorna para caçá-lo e o fim parece pairar sob sua hipocrisia. 


Eu achei bem interessante como, mesmo na época na qual foi escrito, o conto traz a justiça superior, a punição de um homem por algo feito à uma mulher, e como se incorporou o folclore pagão escocês na trama. Ao ler, o texto não se apresentava, pelo menos para mim, como algo muito assustador, mas analisando-o posteriormente, vejo como, se tratasse-se da realidade, seria algo realmente apavorante. Coisa que me fez gostar muito mais desse do que do primeiro, que particularmente achei meio esdrúxulo. 


Mas eu sempre parto da visão de que você não deve levar a minha opinião como lei, e que deve ler com os próprios olhos (com pálpebras) para criar sua opinião sobre. E com isso encerro a resenha dessa semana, caro leitor. Espero que tenha gostado e se o fez, deixe uma curtida, faça um comentário e assine a minha correspondência, para sempre ser avisado quando eu fizer um post novo. 


Adeus, Querido leitor. 


Com amor, Ana J. Carvalho.


 
 
 

Comentários


bottom of page