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O que acontece quando não podemos confiar nem em nós mesmos, em Árvore de Ossos de Tana French

  • Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
    Ana Julia Carvalho
  • há 7 dias
  • 5 min de leitura

É possível, caro leitor, reconhecer que o mal que procuramos talvez habite em nós mesmos? Em "Árvore de Ossos", da autora irlandesa Tana French, publicado pela Darkside Books em 2024, podemos ver como, no caso, uma lesão cerebral, pode acabar com tudo que achávamos conhecer sobre nossa própria mente e passado. 


O livro faz parte da marca E.L.A.S (Especialistas Literárias na Anatomia do Suspense) em Evidência, que assim como o livro “Sobreviventes”, resenhado anteriormente, é uma das marcas da Darkside Books, que tem como intuito evidenciar o trabalho de escritoras mulheres para o gênero. Essa tem se mostrado uma marca muito prolífica, já estando em sua sexta temporada, e com razão. Mas, voltemos a nossa resenha. 


Toby Hennessy, um homem por volta de seus trinta anos de idade, que mora em Dublin na Irlanda, trabalha como um tipo de assessor de uma galeria de arte, tem um apartamento legal, dado pelos pais, uma ótima namorada, amigos que gostam dele e nunca imaginou que sua vida poderia mudar completamente em tão pouco tempo, mas acontece. 

Após se envolver em um escândalo fraudulento com obras de origem ilegítimas da galeria, Toby é dispensado do emprego por alguns dias, para que seu chefe reflita o que irá fazer com ele. Frustrado, ele convida seus dois melhores amigos para encher a cara em um pub, e apesar das provocações, que nos fazem compreender que ele é um mimadinho, que nunca foi realmente atingido por algo ruim na vida e que isso o faz viver em uma completa bolha de pura sorte e dissimulação, ele vai para casa tranquilamente, sabendo que no final tudo dará certo. Mas, contra todas as expectativas, ele é acordado por ruídos, durante a noite e quando sai para verificar o que poderia ser, ainda embriagado, surpreende-se com um grupo de ladrões mexendo em suas coisas e ao ser avistado, é espancado quase até à morte, quando consegue pedir ajuda, antes de perder a consciência. 

Ao acordar no hospital, Toby precisa assimilar uma realidade totalmente diferente. Parte de sua cabeça foi raspada e agora uma longa e feia cicatriz a adorna, uma de suas pálpebras está caída, metade de seu corpo não parece mais funcionar como a outra parte, sua fala está arrastada e gaguejante e sua memória parece imensamente danificada. A aceitação não lhe parece uma possibilidade e uma raiva se instala em seu humor, com relação à tudo. Ele não quer ver ninguém, não quer ter que conversar, não quer entender ou fazer tratamentos. E assim, dias enlouquecedores passam, até que dois detetives aparecem em seu quarto de internação, perguntando-o sobre coisas que ele não lembra e sobre possíveis inimigos que ele sequer imagina. Mas com tão poucas pistas, apesar do roubo de algumas coisas caras que ele possuía, a única conclusão que a polícia consegue chegar é que o crime foi proposital, do tipo vingativo, e não apenas um roubo aleatório. 

Mais dias se passam até que Toby seja liberado. Não há muito mais o que dizer, o livro estende-se muito com os pensamentos do personagem, mantendo poucos diálogos, fazendo com que a narrativa se arraste e impossibilitando uma leitura fluida. Hospedando-se em um hotel, com medo de tudo, sem querer retornar à sua casa, ao emprego ou à sua vida como era, pois nunca mais será como antes, Toby entra em um estado de depressão quase catatônico. Seus pais e sua namorada tentam de tudo para fazê-lo se mexer, ou ir atrás da fisioterapia e de coisas que irão devolver sua qualidade de vida, mas nada funciona. E então, um dia, conseguem levá-lo para o almoço de domingo que a família sempre faz na Casa da Hera, um antigo casarão da família que ficava um pouco afastado da cidade, e que no momento abrigava apenas um dos quatro irmãos, o querido Tio Hugo. Lá, é revelado que os médicos descobriram um tumor cerebral em Hugo, que já está em estado avançado, que não tem cura, e que portanto só resta ao homem fazer radioterapia, para ter um pouco mais de saúde e aguardar o fim. Desconsolado pela constatação de que aquele que todos tanto amam está perecendo, Susanna, a prima de Toby, consegue convencê-lo a ficar na casa com o tio, para auxiliá-lo até sua morte. Apesar de não querer, ele aceita justamente para não ter que voltar para sua vida, e sua namorada, Melissa, se voluntaria para morar temporariamente lá com os dois (pra não ter dois debilitados sozinhos em uma casa). 

O tempo parece suceder com calma, entretanto, quando todos se reúnem para ter aquela desagradável conversa sobre o destino da Casa da Hera quando Hugo falecer, não esperavam que o filho mais velho de Suzanna alarma-se a todos, ao encontrar um crânio humano, dentro da cavidade existente no maior e mais antigo olmo do quintal. Iniciando um verdadeiro alvoroço, maximizado pela polícia, que destruiu por completo o belo quintal da propriedade, na procura de mais partes do esqueleto, a família é colocada nos holofotes da sociedade, quando a perícia constata que a ossada pertence à Dominic Ganly, um jovem de 18 anos que estudava com os primos Toby, Suzanna e Leon, e que supostamente havia cometido suicídio dez anos antes. A princípio, ninguém é tratado como suspeito, mas ao encontrarem objetos pessoais da família dentro da árvore onde o corpo estava, essa ideia muda. Dias e mais dias se passam com apreensão, enquanto a saúde de Hugo declina cada vez mais, as memórias retornam lentamente em relação ao falecido e a mente de Toby prossegue para um estado de instabilidade, que exacerba-se quando o detetive do caso insinua que ele é o culpado. Sem mais nada para fazer e não podendo confiar nas próprias lembranças, ou na falta delas, Toby decide investigar seus primos, que ele acredita saberem alguma coisa e espera que isso não resulte na descoberta de que ele realmente é o autor do crime. 


Entre intrigas, acusações e enganações, encaramos o falecimento de Hugo, a possível resolução do crime, a revelação pacífica da verdade e uma reviravolta agressiva que nos surpreende no último instante, mudando o rumo dos acontecimentos e assim encerrando nossa história com um panorama de como a vida pode mudar completamente em tão pouco tempo. 


Não posso dizer que amei o livro. Vendo agora por uma ótica geral, acho sim a história interessante, mas o fato de Toby ser tão dissimulado e inatingido pelas durezas da vida, faz com que ele seja um afetadinho insuportável, e é muito difícil se apegar à uma história quando não se tem apreço pelo protagonista. Também dificulta o desperdício da boa escrita da autora, que passa muito tempo apenas expondo reflexões internas sem acontecimento externo nenhum, fazendo com que o livro se arraste, prolongando demais a leitura. 


Mas enfim, de certo modo, concluo que vale a pena a leitura, pois é uma história diferente e merece nossa atenção. A autora consegue acertar em nos desviar da verdade para pegar-nos desprevenidos quando lhe é conveniente, o que colabora para uma melhor experiência no âmbito do suspense. 


Espero que tenha gostado da resenha dessa semana, caro leitor, e lhe espero na próxima para mais uma aventura. Se gostou do post, peço que deixe uma curtida e faça um comentário, além de assinar minha correspondência, para sempre ser avisado quando uma nova publicação surgir. Isso me incentiva muito a continuar esse trabalho que tanto gosto. 


Adeus, Querido leitor. 


Com amor, Ana J. Carvalho.


 
 
 

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