A banalização da hípersexualização da mulher, em Os Canibais da Rua do Arvoredo de Tailor Diniz
- Ana Julia Carvalho
- 11 de fev.
- 9 min de leitura
Você deve estar confuso, caro leitor, em relação ao título da matéria de hoje. O que é perfeitamente plausível, já que, o que cargas d’água hípersexualização tem a ver com um livro sobre canibais? Bem, eu já te conto.
Nestes últimos dias eu li “Os Canibais da Rua do Arvoredo” de 2023, do autor Tailor Diniz. Por tempos, eu estive muito empolgada para ler a obra e fiquei muito feliz de achá-la numa feirinha de livros por apenas 20,00. Eu me interessei por ela ao encontrá-la casualmente enquanto navegava na minha Amazon, e por se tratar de uma história baseada em um tipo de mito da cidade de Porto Alegre (cidade na qual pretendo morar futuramente), acabei colocando-a na lista de compras.
Eu não sou fã da ideia de trazer um livro que eu não gostei para a internet, até porque não tenho intenção alguma de ofender o autor ou algo do tipo. No entanto, esse livro torna difícil fazer boas críticas à qualquer coisa. Eu não sei dizer se foi da escrita que eu gostei menos, da ignorância de ideias que não se fazem muito claras, deixando confuso se se tratam de sarcasmo ou pura burrice, ou da falta de um desenvolvimento interessante e menos bruto, mas acredito que tenha sido principalmente a hípersexualização absolutamente desnecessária e irrelevante, que constrói apenas a má impressão de que essa é a única visão que um homem pode ter sobre uma mulher.
A história, apesar de parecer exposta no título, possui um elemento a mais que molda a narrativa. Elemento esse que eu particularmente achei extremamente desnecessário devido ao chulismo que apresenta, mas enfim, continuemos. O enredo tem um tipo de distopia, apesar de vermos muito pouco sobre. Nosso narrador se chama Zìnìdt Otten, e ele não é o personagem principal. Ele se denomina como um filho do globalismo, sem nacionalidade. Ele é um “soldado” da Nuvem Superior Eterna (NUSE), uma entidade mundial que visa o controle total e a manipulação da mente dos seres humanos, que eles fazem por meio de, além de outras coisas, microchipagem inserida na vacina contra Covid. Como um voyeur de carteirinha, ele usa o aparelho RESIHUC (Receptor de Sinais de Humanos Chipados), dado pela NUSE, para espiar a vida de pessoas aleatórias, ver o que fazem e o que pensam. No auge de seu tédio, ele decide assistir um jovem casal de universitários de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, que está passando por dificuldades no relacionamento. Catarina, uma estudante de medicina, se sente sexualmente frustrada com seu namorado José, um vegano estudante de culinária. Aparentemente não há nenhum problema no relacionamento deles, só ela que quer sempre ser o centro das atenções e quer que a vida se movimente mais. Por meio de nosso narrador, acompanhamos o cotidiano desses dois. Um dia, procurando esse tal movimento, Catarina decide começar um canteiro de flores na casa dos dois, e enquanto cava para começar a plantar, ela descobre que a parede da casa se transforma em pedras antigas, debaixo da terra. Suspeitando que o imóvel possui um subsolo, ela e José começam a procurar em todos os cômodos por alguma entrada para o lugar. Em um quartinho esquecido, escondida por um grosso tapete, eles encontram uma portinhola no chão, que dá acesso ao tão procurado porão. Lá, eles encontram um quarto escuro, com uma aura sombria, recheado de utensílios como cutelos, facas e machados, mais parecendo um abatedouro. Encontram máquinas velhas para fazer linguiça e outras coisas que indicam que os antigos donos possivelmente produziam seus próprios embutidos. No entanto, no canto do porão, Catarina encontra um esqueleto humano, sentado no chão, como se tivesse morrido de um ferimento e ali tivesse permanecido por um século. E como ela é meio ablublu das ideias (Ablublu: palavra moderna para uma pessoa meio pirada), em vez de ficar apavorada, ela fica excitada, e ela e José copulam ali mesmo na velha e manchada mesa do cômodo. É importante citar que sempre que eles estão em casa, sombras estranhas e distorcidas os seguem, mas eles nunca as veem.
Um dia, em uma aula de anatomia, enquanto prazerosamente disseca um cadáver, o professor de Catarina conta sobre uma interessante história de Porto Alegre que aconteceu um século antes, e que o professor dele era obcecado com. O mito fala sobre um casal que morava em uma rua chamada Arvoredo, e que vendiam linguiça de gente, fazendo daqueles que consumiam, canibais, sem saberem. Pesquisando mais sobre o assunto, Catarina descobre que COINCIDENTEMENTE o casal da lenda morava exatamente na casa deles, e que antigamente a rua se chamava Rua do Arvoredo, E que os dois também se chamavam Catarina e José. (Achei forçação de barra demais, mas tudo bem)
E obviamente, como a louca que é, ou que está se tornando com a inclinação dos espíritos da casa, ela acha isso ainda mais excitante. Os dois decidem fazer um tipo de tabuleiro Ouija caseiro para conversar com os fantasmas, e depois de um susto, com os barulhos das facas caindo lá no porão, eles recebem a mensagem de que as entidades estão furiosas, e que querem vingança.
Em uma noite, Catarina e José vão à Anjos&Demônios, um bar de striptease (um puteiro) para dançar. Bebem muito e discretamente, Catarina dá em cima de um homem no bar, que enfia a mão por dentro de sua roupa e coloca o cartão com seu contato. Este é Alex, mas falemos dele mais tarde.
Junto de sua amiga da faculdade, Pati, Catarina aceita se encontrar com o irmão Uéllem da luz, um amigo da moça que seria algo como um pai de santo, mas de uma igreja que deve ser evangélica. Ela espera que ele possa resolver o problema de Catarina com as assombrações. Ele confirma que há sim algo ruim seguindo os dois, mas que não consegue identificar bem o que é, e as coisas ficam por isso mesmo.
Catarina, que não dá pra saber se é fingida, dissimulada ou possuída, faz coisas das quais não se lembra, ou pelo menos finge não lembrar. Como quando ela vai na hamburgueria da esquina e briga com o dono por ele não ter uma opção vegana no cardápio, e depois compra dois hambúrgueres e obriga, de maneiras sexuais, José a comer a carne e o queijo. Sim, o acasalamento é exacerbadamente presente nesta história.
No dia seguinte, Catarina passa na frente da hamburgueria e o dono chama ela para apresentar o novo prato vegano, que ele fez com urgência devido ao interesse sexual na moça. Ela diz não se lembrar de ter conversado com ele e nem pedido nada, mas aceita, prova e gosta, levando para José que também adora. Manoel, o tal dono, fica sempre contando vantagem, de que a moça já está “no papo”.
Em uma noite, quando José iria trabalhar como chef em um evento, Catarina se arruma e volta à boate, para encontrar Alex. O homem é um cafetão e imagina que ela é uma profissional do sexo de primeira viagem. Nesta cena, nos é introduzido o personagem Doutor Borjão, o mais assíduo cliente da casa. Um cirurgião plástico especializado em próteses de silicone e modificações genitais, que esbanja muito dinheiro com bebidas e prostitutas na casa, e que também se interessou por Catarina. (Todos se interessam. Ela é tipo a última bolacha do pacote para os homens héteros)
Querendo “provar a mercadoria”, Alex leva Catarina para a casa dela, onde, em cima da mesa do porão, os dois começam a se relacionar. Chegando no meio, e enlouquecido por um sonho premonitório que havia tido, de que um homem tentaria estuprar Catarina, José pega o machado e parte o crânio de Alex ao meio. Apesar de ficar desesperado, ele é acalmado por Catarina, que se aproveita da situação para fingir que estava sim sendo forçada, e orienta-o de que devem partir o corpo do homem em pedaçinhos pois assim será mais fácil se livrar dele. Guardam tudo no freezer e enterram a ossada no quintal.
Depois de muito tentar convencê-la, Pati consegue levar Catarina novamente ao irmão Uéllem, que insiste em vê-la. Ela não queria ir pois teme que ele saiba o que eles fizeram com Alex. Mas ele revela ter descoberto que os dois espíritos que os seguem querem vingança pois eram açougueiros e foram falsamente acusados de venderem carne de gente, e por isso foram presos e humilhados. E agora, querem que eles matem a reencarnação do detetive que os caçou, mas o irmão não sabe quem é essa pessoa.
Catarina decide que precisa se livrar das partes de Alex, que ainda estão em seu freezer, e decide fazer hambúrgueres com elas, espantando José. Ela vai até a hamburgueria de Manoel e propõe uma parceria. Diz que tem uma receita antiga de sua avó estrangeira, e que pode fazer um hambúrguer delicioso, e que quer metade dos lucros do prato. Maravilhado com o sabor, ele aceita imediatamente, mas sempre visando o interesse por ela, claro.
Quando o prato vira um sucesso, e a carne de Alex começa a acabar, eles decidem que precisam arrumar mais. Apesar das ressalvas de José, Catarina insiste para que procurem a nova vítima na Anjos&Demônios novamente. Com uma peruca loira e outra roupa, eles voltam lá e é claro que ela acha uma ótima ideia atrair a outra única pessoa além de Alex que está todos os dias na boate, como se ninguém fosse reparar sua ausência. Mas com o Doutor Borjão não obtiveram tanto sucesso quanto com a vítima anterior. Devido a um movimento brusco, José erra a machadada, acertando no ombro do homem. Percebendo a intenção dos dois, ele nocauteia Catarina e quase mata José, mas os espíritos da casa os ajudam e derrubam outro machado que parte ao meio o grande homem. Apesar do cadáver corpulento ter gerado muito mais carne para os hambúrgueres, o casal começa a ficar meio amedrontado com o que estão fazendo, e pensam em parar, mas os residentes fantasmagóricos da casa claramente não concordam.
Vendo a recente obscuridade de Catarina, Pati a arrasta até o irmão Uéllem novamente, para um tipo de purificação que irá afastar os obsessores deles. No entanto, como aparentemente todos os homens dessa cidade, ele também tem segundas intenções com ela e faz toda uma cerimônia que precisa despir ela e tocar seu corpo. Percebendo o tom do homem, Catarina diz que é melhor fazer isso na casa dela, e sendo punido por suas expectativas, ele acaba se tornando a terceira vítima. Depois disso, os assassinatos deslancham. Os dois descobrem ser muito mais fácil eliminar moradores de rua, e oito deles somem pela cidade. Um detetive da polícia começa a investigar os crescentes desaparecimentos que vêm ocorrendo, fechando o cerco ao redor da casa do casal. Dias depois do desaparecimento do Irmão, Pati está extremamente preocupada e começa a questionar Catarina, que parecia ser a última a tê-lo visto com vida. Após muito insistir, ela a convence a permitir que investigue sua casa. É importante dizer que, poucas horas antes, um motoboy da hamburgueria de Manoel decidiu fazer o mesmo, pois desconfiava de Catarina, que nunca parecia receber produtos em sua casa, mas sempre saía de lá com um estoque de carne. Invadindo a residência, ele encontra o porão, mas o alçapão fecha repentinamente, prendendo-o lá. Ele passa horas gritando antes que elas cheguem. Munida de um crucifixo, Pati inspeciona todo o imóvel, e quando estava para desistir, no último quartinho, ouve batidas vindas do chão. Percebendo que será descoberta, e reconhecendo que ela é a alma reencarnada do detetive que os prendeu, Catarina a ataca com o machado, errando enquanto a amiga foge. Pati consegue chegar até o portão da casa, quando a arma é arremessada em suas costas e ela cai na rua, sendo atropelada. Uma comoção se inicia, e o trânsito para para socorrê-la. Enquanto isso, Catarina foge para dentro da casa. A polícia e ambulâncias chegam, isolando o perímetro. Pati é socorrida às pressas, e a polícia invade a residência. Após muito resistir e ferir um dos oficiais, eles conseguem prendê-la. Adentrando o quartinho do subsolo, a polícia acha inúmeras partes de cadáveres espalhadas, vísceras e tudo mais. Saem exasperados, vomitando para todo lado. E assim, Manoel, que foi olhar o que aconteceu, conseguiu ligar os pontos, percebendo que seu prato que ficou extremamente popular na cidade, se tratava de carne de gente. Horrorizado, ele inicia o que se tornou uma onda de suicídios, com todos os consumidores aterrorizados por terem ingerido aquilo. A cidade entra em surto. Para contê-lo, a NUSE decide espalhar um agente na água que fará com que os cidadão esqueçam tudo que aconteceu no último mês de suas vidas. Assim, com o apagamento do acontecido, a cidade volta ao seu ritmo normal. A polícia até esquece porque prendeu Catarina e José, e os dois são soltos, para voltar para casa e ser novamente corrompidos pelos espíritos, gerando futuramente uma nova onda de canibalismo na antiga Rua do Arvoredo.
Eu particularmente desgostei muito do livro. Sorte sua, caro leitor, que eu estou aqui para lê-lo, e assim você não vai precisar gastar seu tempo com isso. Não gostei do tipo da escrita, achei a história rasa e pouco criativa. Sem contar o foco da discussão de hoje que é a hipersexualização de Catarina. Uma mulher pode sim ter uma vida sexual super ativa, mas o autor frisa o tempo todo como todos querem “comer” ela e está sempre falando das partes do corpo dela em momentos que sequer são sexuais. Tipo, isso é realmente necessário em uma história sobre canibalismo? Ou são os gostos dele refletidos em sua obra? Acho que se ele passasse menos tempo tratando ela como uma “vadia/ pedaço de carne” talvez ele pudesse escrever um livro minimamente decente. É tão óbvio que isso só reflete nela, que ele só comenta uma vez que José é atraente. Isso contribui para a falta de interesse na literatura masculina e no estigma de que todos os homens são iguais e que só pensam em sexo.
Enfim, espero que você sinta minha indignação, caro leitor. Eu definitivamente preferia ter passado meu tempo lendo outra coisa. Espero que fiquem bem. Curtam o post se gostarem, assinem a correspondência para serem avisados quando eu publicar algo e façam um comentário. Isso me incentiva muito a continuar.
Adeus, Querido leitor.
Com amor, Ana J. Carvalho.




Primeiramente, agradecer por poupar o tempo de quem pretendia ler este livro. Acredito que seja mais um caso de autores exportando seus fetiches e anseios em texto; o que não é ,necessariamente, um problema quando é bem feito. Mas. não é o caso. No entanto, a forma como foi apresentado a trama me lembrou de um bom livro; gostei bastante desse, seria legal se conseguisse traze-lo: Imagens Estranhas, Uketsu. A diferença, é um bom livro, e curto - 180 páginas.