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Os segredos que destroem vidas, em Sobreviventes de Megan Miranda

  • Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
    Ana Julia Carvalho
  • 21 de jan.
  • 12 min de leitura

É de conhecimento geral, caro leitor, que é possível criar uma atmosfera de suspense e desconfiança no mundo do cinema, mas e nos livros? Será possível sentir algum nervosismo mesmo sem o apelo das imagens e dos estímulos sonoros? Bem, eu digo que sim, pois, em Sobreviventes da autora Megan Miranda, publicado pela Darkside Books em 2024, pelo projeto E.L.A.S (Especialistas Literárias na Anatomia do Suspense), da marca Crime Scene da editora, a desconfiança, é uma companhia constante, te impossibilitando de acreditar naquilo que vê, e ainda menos naquilo que sabe, ou acha saber. E quanto mais você descobre, mais as coisas parecem se interligar, mas então desenvolvem ramificações que te deixam ainda mais perdido, como eles mesmos, os sobreviventes, já estiveram um dia. E te faz questionar, o que pessoas seriam capazes de fazer para proteger um segredo?


Em Sobreviventes, somos primeiramente apresentados a Cassidy, nossa protagonista. Mas ela mesma não se declararia assim, pois foi invisível a vida toda. Para as pessoas de sua escola, para sua família... Mas pela primeira vez em anos, ela não foi invisível para Russel, seu namorado de poucos meses. E ela acreditou que pudesse se esquecer de tudo e ignorá-los, e que se não fosse lá esse ano, esse laço pesado e involuntário entre eles fosse acabar. Mas no dia do encontro, enquanto ela tentava pensar em qualquer outra coisa, Cassidy recebe uma mensagem de um número anônimo, e só poderia ser já que ela apagou o contato de todos eles, com o link de um obituário de Ian Tayler, 28 anos. E então ela percebe que não pode escapar disso e que precisa ir até eles. Fazendo a mala rapidamente e dando uma desculpa para Russel, ela dirige durante cinco horas para as ilhas-barreiras do sul, para o Remanso. 


No funeral de Clara, um ano após o acidente, os sobreviventes restantes decidiram que precisavam ficar juntos, criando uma semana por ano, no aniversário da tragédia, onde eles deveriam deixar tudo e ir ao encontro dos outros. O ponto de encontro, por mero acaso, foi instaurado como o Remanso, a casa de veraneio dos pais de Oliver. Uma casa grande, com cinco quartos, em uma estrada sem asfalto e que dava direto na praia. Reservada todos os anos nessa época para o uso deles. Aconchegante e intimidadora na mesma medida. Assim que chega, ela encontra Brody, o antigo galã da escola, um paramédico, e o único entre eles que já é pai. Ele a recebe com um grande abraço. Depois vem Amaya, no quarto que ambas dividem. Baixinha, ativista e participante de várias ongs, é uma das únicas que ainda vive na antiga cidade deles. Ela parece assustada, diz ter visto alguém na praia, parecendo tirar foto da casa, deles. Mas Cassidy não presta muita atenção, e a deixa para encontrar os outros em volta da fogueira, na parte de trás da casa. Lá, ela encontra Josh, um advogado que trabalha para a firma da família de Amaya, e Grace, que condizentemente com sua personalidade acolhedora, se tornou psicóloga. Oliver King, um bem sucedido integrante do mercado econômico, apesar de ser filho dos donos da casa, chega por último. E Hollis, a influenciadora de estilo de vida saudável, está na praia, praticando alguma coisa zen que ninguém tem interesse. Deixando que os outros conversem entre si, Cassidy vai atrás de Hollis, que não a percebe por estar concentrada. Andando perto do mar, mas sempre distante o suficiente para que a água não toque seus pés, ela vê algo refletindo o sol. Ao se aproximar, ela encontra um celular completamente encharcado. Procurando o possível dono, ela pergunta para as únicas pessoas ao redor, uma mãe com sua filha e um jovem pescador que passa, mas nenhum dos dois reconhece o objeto. Intrigada, ela o guarda e retorna para junto dos outros. Apesar de não ser dito, é implícito que eles não falam dos que não estão lá, portanto não citam Ian, e como ele deixa um espaço vazio entre eles. No entanto, Josh anuncia que irá ficar com o quarto do sótão, que era do falecido amigo, causando alvoroço entre os outros. Os quartos foram predeterminados desde o primeiro ano, e não há porque mudar agora, ainda mais a despeito da memória de Ian. Mas Josh está irreversível, indignando principalmente Amaya, que entra em seu carro e some sem dar satisfação a ninguém. Podemos ver a dinâmica existente entre o grupo, um sentimento estranho entre extrema intimidade e conhecimento e um desconforto distante, como se conhecessem o que existe no seu âmago mas não o que há em volta dele. Enquanto eles bebem no Maré alta, o bar perto da casa, que eles sempre frequentam durante a viagem, e jogam conversa fora sobre as mudanças do último ano, Cassidy não consegue parar de pensar no paradeiro de Amaya e na falta de respostas da mesma. Em geral, ela sempre sumia por um tempo e reaparecia depois de espairecer, mas desta vez parecia diferente. 


Entremeados ao presente, temos capítulos que mostram o passado, o acidente, pela visão de cada um dos sete restantes. E olhando separadamente por seus olhos, entendemos mais sobre as particularidades da tragédia que os uniu. 


Uma excursão da escola, com alunos do último ano, divididos em duas vans, dirigidas por professores. Subiriam a montanha para ver algo, mas não acharam o que queriam, perderam-se do caminho e tiveram que voltar. Então, algo na estrada fez com que a primeira van tivesse que frear subtamente, fazendo com que a de trás batesse nela, arremessando o primeiro carro pela grade de segurança da estrada e derrubando-o diretamente no rio, na ravina, e a segunda, não conseguindo parar, foi jogada encosta abaixo. Apenas três alunos, Cassidy, Josh e Ian (e posteriormente descobrem que Hollis também) sobreviveram da segunda van, que foi arrastada pela forte correnteza do rio antes que outros pudessem ser salvos. Eles precisaram se aventurar em meio a  mata, até encontrar os sobreviventes da primeira van, esperando em um sulco rochoso. A chuva começou a atingi-los, alvoroçando e enchendo o rio cada vez mais, chegando perto com a possibilidade de afogá-los. Com mais sorte (se é que sorte existe em um acidente desses) que os integrantes da segunda van, quase todos os da primeira sobreviveram, tirando o professor, que aparentemente havia morrido com o impacto, e afundou com o carro quando a correnteza o levou. Amaya, Brody, Oliver, Clara e Grace estavam bem, mas outros três alunos que estavam com eles se encontravam feridos, encostados na rocha, não conseguindo se mover. E a primeira decisão importante que eles precisam tomar, guiada por Amaya, é a de escalar a encosta, para tentar chegar à estrada e pedir socorro. Nenhum deles portava celular pois foi proibido pela escola. Clara não queria que eles abandonassem os feridos, que ainda estavam vivos, mas não havia jeito de levá-los. A única esperança era conseguir ajuda antes que a água os engolisse, mas quando eles se encontram no árduo caminho para cima, conseguem ouvir o rugido do rio, e saber que acabou, não havia mais ninguém para salvar.


Essa ainda é uma das coisas que mais os perturbam. Os gritos, que nunca cessam. A ciência de que para sobreviver, e não estar entre os mortos, outros foram deixados para trás, precisaram morrer. Algo que ninguém além deles pode saber. 

Na segunda-feira, Cassidy consegue ligar o celular que encontrou na praia, e descobre, com espanto, que foi de lá que mandaram a mensagem com o obituário de Ian, que ela imaginava ter sido mandada por Amaya. Vendo que nenhum dos outros está sem o celular, e desconfiando das possíveis más intenções de alguém, ela os questiona sobre, mas Oliver diz para ela esquecer disso. O número não é da região, e deve ser só alguma coisa estranha. Mas ela continua com a suspeita de que algum deles está tentando mexer com ela. 

Com o desenrolar do dia, Cassidy continua a sentir mais que todos a ausência de Amaya, extremamente preocupada com as escassas e esparsas respostas dela. O grupo se reúne na praia para se distrair e em dado momento, Josh e Hollis, uns dos únicos que têm coragem de entrar na água (traumas devido ao acidente) fazem uma competição de natação, de onde Hollis acaba saindo machucada por algo que atingiu sua perna no fundo do mar. De maneira tumultuosa, eles a trazem de volta para a casa e fazem o possível para ajudá-la, propiciando a eterna sensação de desconforto que sempre permeia aquela semana do ano. Mais tarde, em uma conversa com um tom de flerte com Brody, que nunca aconteceria se o acidente não os tivesse unido (já que como galã da escola, ele nunca teria reparado na garota invisível), Cassidy percebe que há algo que talvez ela não saiba e sobre o qual os outros não estão falando. Como se houvesse um outro grupo menor dentro do grupo deles, que aparentemente foram procurados por jornalistas que subitamente caçavam mais informações sobre a tragédia. E ela não recebeu nada desse tipo, mas como poderia? Mudou todas as informações de contato na tentativa de fugir dos amigos. Ela encontra um email de meses antes, de Josh, enviado para todos do grupo, dizendo que eles não precisavam responder nada que estivessem perguntando, e que eles não iriam conseguir continuar com a investigação se nenhum deles revelasse nada. E depois, outro, mais chocante ainda, de poucos dias antes da morte de Ian, do próprio pedindo para que ela o contatasse, e que ela era a única em quem ele confiava. Seguido de suas informações de contato. E então ela soube. O número, o código da Carolina do Norte. O telefone que ela encontrou era de Ian. 


Dia após dia, vemos Cassidy achando mais inconsistências e coisas suspeitas no grupo, enquanto de um em um, os capítulos voltam às inacabáveis horas do acidente, revelando coisas que apenas um ou outro sabe, e que contribui para os traumas e os sentimentos de culpa gerados. Além de um segredo maior que todos escondem. 


Somos introduzidos à história de Ian e Cassidy, que após o acidente se encontravam frequentemente nos funerais que aconteceram em sequência para sepultar todos os mortos da tragédia. Eles mal se conheciam antes do acontecido, na verdade todos eles tinham estudado juntos, mas ninguém nunca prestou muita atenção nela. E naquele verão, buscando consolo um no outro, os dois tiveram um relacionamento intenso, que acabou no ano seguinte, com a morte de Clara e o declínio mental de Ian, que começou a abusar de substâncias ilícitas. E extremamente incomodada com a descoberta do objeto, Cassidy começa a desconfiar que um deles pode ter algo a ver com a morte de seu antigo amante. 


Ela se direciona a cidade para consertar o aparelho e procurar algum método de desbloqueá-lo, para investigar mais sobre. Ficando presa na loja, e sem mais respostas, ela é salva pelo vizinho da frente, o mesmo pescador que conheceu quando encontrou o aparelho. E com ele, percebeu a curiosa visão que os vizinhos possuem deles, de um grupo que vem uma vez ao ano, em uma casa que fica vazia o ano todo, que eles chamavam de Casa Fantasma.


Na quarta-feira, com um mau tempo se acumulando, os ventos ficando mais fortes e o mar mais revolto, as tensões na casa aumentam. Os jornalistas sabiam sobre coisas que não deveriam saber, e os integrantes do grupo começam a desconfiar uns dos outros, de ter abrido o bico sobre algo. Cassidy começa a questionar sobre o que cada um se lembra do acidente, e o que era realmente verdade ou ilusões criadas pelo trauma. 


Ao visitar Will, o vizinho pescador, ela descobre que Oliver já estava na casa na manhã do dia do encontro, o que não fazia sentido já que ele apareceu como se tivesse chegado por último. E que, muito estranhamente, Ian havia estado lá alguns meses antes. 

A enxurrada finalmente chegou e a cidade começou a entrar em colapso. O acampamento, onde Amaya dizia estar hospedada, foi evacuado para o hotel da cidade. Em desespero, todos correram para o mercado, esvaziando as prateleiras, e depois pro bar, atrás de comida e bebida antes que acabasse, temendo o possível bloqueio das estradas que saíam da ilha. 


No Remanso, com a tempestade aumentando os ânimos, e preocupados com Amaya, o grupo começa a questionar coisas sobre a mulher que não são do conhecimento de todos. Como o porquê dela ter saído da empresa de advocacia e cortado o contato com a própria família no ano anterior. 

Refugiando-se em seu quarto, Cassidy decide procurar algo que Amaya possa ter deixado para trás. A suspeita e tensão no ar estavam deixando-a cada vez mais nervosa. E contra suas expectativas, embaixo da cama da amiga, ela encontra um bilhete com apenas duas palavras: FUJA AGORA!


Ela traça um plano de procurar a mulher e depois dar o fora daquele lugar o mais rápido possível. Mas ao sair da casa, dá de cara com os bloqueios na via que impedem qualquer um de deixar a ilha e voltar ao continente. Direcionando-se ao hotel, ela vê o carro de Amaya no estacionamento e pergunta sobre na recepção. Mas devido a evacuação do acampamento, o hotel está em uma superlotação caótica e não pode revelar informações sobre hóspedes. Com um última esperança, Cassidy decide bater de porta em porta até encontrar a amiga, mas no caminho encontra Josh já fazendo isso. Depois de um momento de espanto, e conectando pontos, ela consegue adivinhar o  porquê de ele estar ali. E já tendo procurado em tudo, eles decidem investigar o carro de Amaya, mas não encontram nada que revele algo. 


Mais tarde, almoçando no restaurante, com o estabelecimento lotado pela falta de energia nas casas, após alguns questionamentos estranhos de Will, o vizinho, que parece ter descoberto que acidente os interliga, Cassidy começa a desconfiar do interesse dele em seu grupo de amigos, e se pode ter revelado demais para alguém com más intenções. 


Na casa, quando a energia retorna, o grupo descobre uma câmera escondida em cima de um armário, gravando-os. Paranóicos, acusando uns aos outros, mais segredos são revelados, sobre a casa, a origem da câmera e sobre a morte de Ian Tayler, que aconteceu naquela mesma sala, meses antes. 


Apesar de terem a regra tácita de não acabar a viagem antecipadamente, Cassidy, junto de Grace, decidem reunir suas coisas e ir embora antes que a situação fique mais tensa. A chuva finalmente parou, mas os bloqueios na via continuam. Elas abrem caminho sozinhas e se direcionam para a cidade onde nasceram, pois era mais perto para deixar Grace. Pode ser o cansaço de Cassidy, ou a sensação que incomodava-a tanto, mas Grace parece muito estranha. De certa forma até suspeita, apesar de nada confirmar isso. Ao deixá-la em casa, extremamente desconfortável com o retorno à cidade da qual ela fugiu, mas por pensar já estar lá, ela vai até a casa da família de Ian. Lá, ela encontra um objeto no mínimo incriminador, que fez parte da tragédia, e que ela não sabia estar na posse do amigo. Além de descobrir que, na homenagem de um ano da tragédia, momento que antecedeu a morte de Clara, a nona sobrevivente, Grace também estava lá, apesar de não ter contado.


Enquanto certos pontos vão se ligando, Cassidy segue um rastro de que algo pode estar perseguindo o grupo, vindo atrás de seus segredos com sede de vingança. Ian achava que estavam atrás dele, e agora está morto. Quem poderia estar fazendo isso? Qualquer um que soubesse de algo havia morrido no próprio acidente. 


Sem respostas de seu namorado, Cassidy volta para casa e não o encontra. Mas encontra Josh a esperando, afobado. Alguém sabia de coisas e estava o ameaçando por meio de cartas. Suspeitando que ela pudesse ter revelado algo, ele vasculha sua casa atrás de pistas, mas não encontra nada. Mas talvez, ela desconfia, pode ter contado coisas demais à alguém involuntariamente. 

Ainda preocupado com Amaya, Josh avisa estar indo para a casa dela, e horas depois, quando todos recebem uma mensagem da mesma, muito parecida com a que Clara mandou antes de acabar com a própria vida, Cassidy segue o mesmo caminho do outro, rumando para a casa da amiga. Lá, ao não encontrar nenhum dos dois, mas presenciar a chegada de todos os outros integrantes do grupo, um novo elemento aparece, chegando ao ápice de nossa história. Alguém realmente estava indo atrás de questões do passado, e o grupo é confrontado por segredos há muito escondidos e que eles tanto tentaram esquecer. Após um confronto, os resultados são perturbadores, e feridas que antes pareciam cicatrizadas reabrem, fazendo-os novamente olhar para dentro e ver tudo aquilo que tanto evitaram. E para finalizar a história, nos é revelado a memória mais crucial, que gerou todos os acontecimentos do passado, culminando na tragédia que os uniu. E o que nos resta é viver com essa informação e nos questionar o quê e como as coisas poderiam ter sido diferentes. 


Uma das coisas que eu mais gostei no livro é a habilidade da Megan Miranda de, apesar do livro ser narrado em primeira pessoa pela Cassidy, ainda assim fazer com que ela pareça invisível aos nossos olhos. Apesar de estarmos em sua cabeça, conhecer coisas sobre sua história, ainda assim parece que não sabemos nada concreto sobre ela. O invólucro de invisibilidade que a permeou por toda a vida é tão grande para os outros quanto para ela mesma, e assim se faz para nós que estamos lendo. Além da belíssima atmosfera onde, apesar de conhecer e não parar de ver aqueles ao seu redor, é impossível confiar neles. 


Fica aqui minha recomendação. Sobreviventes não é um livro excepcional, e as coisas demoram um pouco para engatar, mas é uma leitura muito boa para quem busca um thriller psicológico, com uma imersão mais que decente. Espero que tenha o interesse em lê-lo e descobrir por si próprio as tantas coisas que não pude revelar para não estragar a experiência de ninguém. 


Ficamos aqui com mais uma resenha, espero que tenha gostado. Assine a correspondência de email e você será alertado sempre que eu fizer um post novo. Deixe a sua curtida, se assim desejar. Isso me incentiva muito a continuar produzindo com esmero. 


Adeus, Querido leitor. 


Com amor, Ana J. Carvalho.


 
 
 

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