A dificuldade dos humanos em acreditar naquilo que veem, em O Livro dos Acidentes, de Chuck Wendig

A racionalidade humana é algo muito interessante, não acha, caro leitor? Nos orgulhamos tanto dela, de sermos pessoas centradas e de não acreditarmos em qualquer coisa por aí. A maioria de nós é do tipo “eu só acredito vendo”, e quando vê, não acredita, pois pode ser só coisa da imaginação, uma ilusão, efeito da luz, algo físico, como um tumor cerebral, ou qualquer outro motivo que possa explicar o inexplicável. Assim, podemos criar uma falsa sensação de segurança, de estar no controle, e é isso que vemos acontecer repetidamente em “O Livro dos Acidentes”, de 2023, do autor Chuck Wendig, até não ser mais possível negar a incômoda verdade que os rodeia.
Tudo começa com uma velha cadeira elétrica. Edmund Walker Reese, um assassino em série que estava no corredor da morte de uma cadeia no interior da Pensilvânia, nos Estados Unidos, finalmente iria ser executado por seus crimes. Sendo eles, o assassinato e estripamento de quatros meninas, em um parque de sua cidade, o Ramble Rocks. Ele foi pego devido ao fato de sua quinta vítima ter fugido. Mas apesar de ter sido pego, muitos mistérios rodeavam o caso e a vida de Reese. Desde suas pretensões, que diziam ser matar noventa e nove meninas, às suas motivações, algo de cunho aparentemente satanista, de acordo com os rabiscos nas paredes de sua casa, sua estranha obsessão com números, pois sempre estava contando tudo, e principalmente o rumor de que, no momento em que sua cadeira foi ligada, ele desapareceu no ar, não deixando rastro nenhum. Seu carcereiro, o completo escroto, Carl Graves, vem a ser o conectivo entre Reese e os protagonistas de nossa história.
A família Graves, formada por Nate, o pai, um policial que, apesar de ter sido frequentemente agredido por seu pai na infância, faz de tudo para ser o melhor pai que pode para seu filho; Oliver, o filho, um adolescente de quinze anos que possuí o poder de enxergar a dor das pessoas ou das coisas, tornando-o muito sensível a tudo e adicionando uma grande dificuldade a sua vida nesse mundo horrível; e Maddie, a mãe, uma artista boca suja, meio alternativa, daquele tipo de mães descoladas. Apesar de serem uma família estável, tudo muda para os Graves quando um advogado aparece para contar à Nate que seu cruel pai está morrendo de câncer, e que deixará a casa da família para eles. Nate não quer envolvimento nenhum com o velho, e fica feliz em saber que ele irá morrer, não tendo pretensão alguma de ficar com a propriedade. No entanto, Oliver, vem enfrentando momentos ruins devido à sua sensibilidade, e a família decide se mudar para a casa, em outra cidade, e assim recomeçar em um lugar novo. As questões comuns que parecem os incomodar lá, como a adaptação de Nate ao novo emprego de guarda florestal e a casa de sua traumatizada infância, a dificuldade de Oliver em fazer amigos na nova escola e a fluição do trabalho de Maddie, que mais parece estar dominando-a como um surto psicótico, não são nada em relação aos problemas que começam a lhes aparecer. Em cada um, um certo tipo de insanidade começa a se instaurar, seja por causa dos fantasmas que Nate tem visto, tanto o de seu pai, quanto o de um homem barbudo na floresta, que não são apenas espectros, mas podem machucar quem os vê, ou pessoas aparecendo e desaparecendo no meio de relâmpagos, ou pelos apagões que Maddie vem tendo quando cria suas artes e a vida que elas parecem criar depois disso, ou até, principalmente, pelo aparecimento do estranho amigo que Oliver faz, Jake, que o salvou quando o mesmo estava sendo espancado quase até a morte, pelos valentões da escola, e que mostrou-o poderes sobrenaturais e um livro, o Livro dos Acidentes, que continha um vazio cósmico absoluto, além de contar coisas suspeitas sobre o fim dos tempos. Também deve-se levar em conta os pesadelos com ar de premonição que estão tendo, os movimentos coordenados e anti-naturais que os animais e insetos vêm fazendo e toda essa atmosfera de estranheza no ar, como se algo estivesse extremamente errado. A família começa a se desunir, com cada um guardando as coisas que viu ou experienciou inteiramente para si mesmos.
Tenho que citar também a questão de Ramble Rocks. Apesar de ser principalmente conhecida como a área de caça de Reese e o lugar onde ele deixou os corpos de suas vítimas, o parque é um lugar assombrado, na visão dos moradores da região. Sobretudo o escuro túnel do antigo trem, que já não possui trilhos, pois dizem que um maquinista colocou a cabeça na janela da locomotiva e foi decapitado por algo presente na passagem. A junção desses e de outros acontecimentos macabros, fez com que ninguém mais ousasse adentrar o túnel.
Voltemos então a Jake, o catalisador de tudo. Um estranho menino de dezoito anos, com uma cicatriz no olho que o deixou com um globo estranho e descolorido, com um ar misterioso, e apenas migalhas em relação à um passado de agressão paterna, uma situação de vida miserável, enquanto ostenta uma falta de tato com tudo e com todos, uma brutalidade sempre armada e um fervor ao falar da desesperança em relação ao mundo e da única resolução, a destruição total, que os resta. Ele move nossa história como um ventríloquo brincando com sua marionete. Afasta Oliver de seus amigos e de sua família, prende-o com um senso de dívida e manipula suas ideias, além de controlar outros que rodeiam a família e de não se importar em ter de tirá-los do caminho, se necessário. Tudo em nome de seu plano nefasto e que parece muito maior do que pequenas intrigas, transcendendo o tempo, o espaço e a existência do mundo. Ou mundos?
Essa é mais uma daquelas histórias que são até difíceis de explicar, pois acontece tanta coisa nessas quinhentas e vinte páginas, que só lendo mesmo para entender. O livro, caso não tenha percebido, é uma obra de terror, e apesar de não ser muito adepta ao terror na literatura, acredito que o autor cria muito bem a atmosfera de medo, suspeita e insegurança, a ponto de nos fazer olhar com receio para os cantos escuros, após a leitura. Achei que o enredo foi muito bem construído, com tudo se interligando em algum momento, não deixando nada ao acaso, além de formar uma narrativa muito interessante, que nos deixa ansiosos para o fim. Só queria explorar um pouco mais os assassinatos de Reese, mas entendo que eles não possuem relevância verdadeira para o enredo, então não havia necessidade do autor fazê-lo. Mas de resto, achei uma leitura bem marcante e satisfatória, com uma pegada clara de Stephen King e ótimas referências à cultura pop, sem parecer artificial.
Assim, espero que você tenha se interessado e queira lê-lo para ver todas as coisas sobrenaturais, demoníacas e conspiratórias que não posso dizer (hahaha).
Também espero que tenha gostado do post. Se sim, deixe uma curtida e um comentário. Se inscreva na minha correspondência para sempre ser avisado quando eu fizer um post novo, isso me incentiva muito a continuar esse trabalho. E lembre, caro leitor, confie naquilo que seus olhos veem. Pode não ser uma ilusão.
Adeus, querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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