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O perigo da idolatria aos falsos ídolos, em O Projeto, de Courtney Summers

Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
Ana Julia Carvalho
7 de out.
5 min de leitura
"O Projeto", Courtney Summers. Editora Plataforma 21, 2022.
"O Projeto", Courtney Summers. Editora Plataforma 21, 2022.

É muito fácil, caro leitor, achar as pessoas muito ingênuas por se deixarem doutrinar por outros que dizem ser coisas que não necessariamente são de verdade - principalmente se o caminho para essa doutrina for o religioso - olhando por fora. Mas essas pessoas que botam as unhas afiadas em um aperto firme sob a mente de outras, costumam ser muito boas no que fazem. Costumam ser muito convincentes, dizendo coisas que sabem que irão se enraizar profundamente em seus ouvintes, prendendo-os. São charmosas, atraentes como a luz para insetos, e se apoderam completamente do pensamento de pessoas vulneráveis, passando a controlá-las. Vimos exemplos disso muitas vezes na história. Pessoas que passavam a seguir alguém que dizia ser um escolhido, que só quem o seguisse seria salvo, que ele guiaria a mudança do mundo, e essas pessoas se afastavam de sua famílias, se mudavam para comunas criadas pelo líder, davam todo o seu dinheiro e seus bens para aquilo, completamente sob o controle mental e físico de seu “líder”. Em alguns momentos, algumas pessoas fugiam, sobreviviam àquilo, superavam, outras embrenhavam-se em um controle tão profundo, que eram levadas ao suicídio, pelo trauma ou à mando de seu guia, ou até eram massacradas por eles. Em posse do conhecimento histórico em relação às vezes que essas situações se sucederam, é de se imaginar que não cairemos em uma cilada dessa, mas aí subestimamos o quanto podem nos convencer do contrário. Esse é o caso que vemos no livro “O Projeto”, publicado em 2022 pela autora Courtney Summers. 


Gloria ou “Lo” Denham é uma mulher incompleta. Quando tinha apenas treze anos, ela sofreu um acidente de carro que resultou na morte de seus pais e em sua vida sendo segurado por um fio. Sua irmã mais velha, Bea, sua pessoa preferida, estava em uma festa e não sofreu o acidente com eles. Mas quando voltou, descobrindo a perda dos pais e a internação urgente de sua irmã, a jovem de dezenove anos passou por um período muito sombrio. O desespero a dominou, e na tentativa de ajudar a irmã, ela até se virou para Deus, mesmo que não tivesse crença nele anteriormente. E então, milagrosamente, Lo é salva, começando a melhorar rapidamente. No entanto, algo estava diferente nela. Ela mal lembrava de quem era antes do acidente, assumiu uma personalidade diferente, irritadiça, em completa negação em relação à tudo que lhe acontecera, e sua relação com Bea começou a declinar apressadamente. Não aguentando o peso de toda a situação, Bea deixou a irmã vivendo com a tia e entrou para o Projeto Unidade, uma famosa comunidade que pregava ser uma família que ajudava o mundo, cortando totalmente o contato com a irmã e sumindo completamente da vida dela. Esse projeto era liderado pelo polêmico Lev Warren, um homem que pregava ser um escolhido de Deus, um mensageiro, que pretendia guiar as pessoas para a salvação, por meio de bondades para outros e aceitação dos pecados. Uma imagem que atraía muitos desesperados para integrarem o projeto.

Seis anos depois, após tanto tempo tentando encontrar a irmã e restabelecer o contato, Lo está cansada. Depois da morte de sua tia, sem mais ninguém em sua vida, tendo largado a escola e com o sonho de se tornar uma proeminente escritora, ela ingressou em uma revista, como a assistente de uma jornalista em ascensão. No entanto, um ano depois, sem nem um indício de promoção ou de valorização por parte de seu chefe, Lo entende que precisa mudar. Um acontecimento trágico, um suicídio de um membro do Projeto Unidade que conhecia sua irmã, cometido em sua frente, nos trilhos do metro, desperta o ímpeto dela de ir atrás daquela comunidade que roubara Bea dela. Apesar de nunca ter encontrado Bea, por anos Lo apareceu nas propriedades do projeto, falou com todos que ela encontrava, exigindo ver Bea, mas nunca permitiram isso, aparentemente a pedido de sua própria irmã. Tentou avidamente provar que eles se tratavam de uma seita que fazia lavagem cerebral nas pessoas, mas também nunca obteve provas concretas disso. Dessa vez, indo em um sermão público do projeto, com a presença do próprio Lev Warren, que normalmente é escondido por ter a vida constantemente ameaçada, ela decide não desistir mais. Também deseja explicações em relação ao rumor de que ele operou o milagre que salvou a vida dela, mas deixando a cicatriz assustadora em seu rosto que a marcou para sempre. Ela é expulsa do evento, mas retorna no dia seguinte e faz um acordo com Lev para fazer um perfil dele, coisa que ele nunca permitiu, e apesar de querer desesperadamente encontrar a irmã, ela aceita, pensando em desmascará-los e em alavancar sua carreira. Enquanto ela os acompanha, presenciando as coisas boas que o projeto faz e como Lev é bom em fazer as pessoas se sentirem especiais - algo que a atinge profundamente, devido ao seu eterno sentimento de incompletude e de não saber quem é de verdade - além de descobrir coisas que ela não queria saber sobre Bea, Lo começa a mudar de ideia sobre tudo aquilo, o que pode se tornar sua ruína.

Ao mesmo tempo, temos narrações de anos anteriores ao presente, do ponto de vista de Bea. Em relação aos sentimentos que a acometeram depois do acidente, a sua entrada no Projeto Unidade, as experiências que ela passou lá, a forma como ela mudou, as relações que teve, a como se sentia longe de Lo, e como, um dia, as coisas começaram a mudar, desestabilizando todo o mundo no qual ela achou que estava segura, gerando uma necessidade de escapar, como fez da primeira vez com Lo.


“O Projeto” é um bom livro sobre desconfiança e frustração, pois enquanto temos uma ideia pré-formada antes de ler ele, que esperamos o tempo todo que se confirme, e que vemos o quão parece difícil, já que aparentemente não tem nada de errado com o projeto, como imaginávamos, também vemos Lo caindo mais e mais em uma teia que ela pode não conseguir sair depois, e nos frustra assisti-la entrando nisso, depois de tanto resistir aos esforços deles. A obra nos mostra o quão convincente certas pessoas podem ser e como muitas coisas podem se suceder em nome de delírios, normalizando até os mais escabrosos crimes. 


Espero que tenha gostado do post de hoje, caro leitor. Se sim, deixe uma curtida, faça um comentário. Assine minha correspondência para sempre ser avisado quando eu fizer um post novo. E lembre-se, nunca deixe de pensar por si próprio. 


Adeus, querido leitor.


Com amor, A. J. Carvalho.


 
 
 

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