Um amor que perdura por séculos, em Nossos Destinos Eternos, de Laura Steven

“Até que a morte os separe”, é o que dizem nos casamentos. Mas e se nem a morte fosse realmente capaz disso? E se o amor perdurasse além da morte? Ou melhor ainda, além da sua morte causada pela própria pessoa que você mais ama? Isso é o que observamos no livro “Nossos Destinos Eternos”, da autora Laura Steven, publicado em 2025, pela Editora Galera.
Eu não sou muito habituada a romances comuns, caro leitor, por isso este não poderia ser um deles. O amor demonstrado no livro torna-se extremamente mais interessante quando encaramos a situação ambígua na qual ele é colocado, entre amar uma pessoa, encarnação após encarnação, e ainda assim, querer fugir dela, pois esta vai te matar. Chega até a beirar uma ideia de um relacionamento tóxico e uma dependência emocional, mas com o decorrer da história, entendemos que tudo que é feito, não importando o quão insensível possa parecer, é inteiramente motivado pela forma mais bruta do amor, aquela pela qual se perderia a própria vida (como nesse caso isso não é possível, o maior sacrifício é ter coragem de acabar com a vida do ser que você mais ama). Não que você vá concordar comigo, afinal, apenas eu sei o motivo que gira a roda da eternidade do romance, mas você entenderá se lê-lo, e é nesse ponto que eu quero que você chegue. Mas enfim, vamos para a história.
No livro, Evelyn é uma mulher que nunca chega a completar dezoito anos de vida. Ela vive plenamente, sem nunca morrer antecipadamente por nenhum outro motivo comum (doenças, acidentes e coisas do gênero) e então, antes do seu aniversário de dezoito anos, um ser, sempre o mesmo ser, em um corpo diferente, aparece e a assassina, fazendo com que ela renasça quase que imediatamente, em outra parte do mundo, em uma nova família, com uma nova aparência e gênero. A falta de um futuro e a certeza de sua morte, coisa que ela costuma tornar-se consciente na primeira década de suas vidas, poderia já ser o suficiente para atormentar uma alma, mas o que realmente a perturba, a partir do momento em que se lembra de tudo, é o fato de que o ser, seu assassino transcendental, é nada mais e nada menos do que Arden, o amor de sua existência. Em todas as vidas, ela o anseia por perto, para viverem o amor que nutrem um pelo outro, e ao mesmo tempo, faz o possível para fugir dele, pois encontrá-lo é o sinônimo de seu fim. Há mil anos os dois brincam de gato e rato, e nada nunca muda. Ela lembra de pouquíssimas vidas antes da que está, mas ele lembra de tudo, e portanto, sabe o motivo de porquê precisa matá-la, coisa que ele nunca revela. Em muitas vidas, dominada pela raiva de ser eternamente assassinada por seu amor, ela mesmo chega a ceifar a vida dele. Mas, uma das questões mais interessantes em relação à esses amantes desafortunados, é que suas vidas estão, por algum motivo ainda desconhecido por ela, interligadas, de maneira que, quando um morre, e eles só podem morrer pelas mãos um do outro, o outro automaticamente o segue para o que seria o descanso final. No entanto, o descanso nunca chega, com os dois renascendo simultaneamente em outro lugar do planeta, totalmente diferentes do que eram antes (motivo pelo qual nem sempre Evelyn reconhece que a pessoa que encontra, por dentro, trata-se de Arden, e assim ele pode enganá-la para poder assassiná-la sem que ela fuja ou tente impedi-lo). E apesar de assumir o papel de seu eterno caçador, Arden não é, de maneira alguma, um monstro. Ele é apenas uma alma extremamente cansada e desgastada pelas muitas dezenas de vidas que já viveu, pelos horrores que já passou, presenciou ou cometeu, e que ama Evelyn mais que tudo no universo. Diferente dela que, mesmo após tanto tempo, mantêm-se tão empática com tudo, sempre apegando-se às suas famílias e aos lugares nos quais viveu, ele só consegue amá-la, evitando se machucar com os laços familiares que sabe que irá perder, mesmo sabendo que o laço que mais o machuca é justamente seu amor imensurável por ela e pela atrocidade que precisa executar vida após vida, para protegê-la de algo que transcende as banalidades das vidas mundanas.
No ano de 2022, Evelyn vive o que ela acredita ser sua melhor vida, como Branwen Blythe, em uma cidadezinha no País de Gales. Apesar de ter tido a tragédia da morte de seu pai quando ela era criança, e a partida de todos os outros da família, ainda lhe restavam sua doce mãe, Dylan Green, o gentil ajudante da fazenda que todas consideram como da família e Gracie, sua irmãzinha pré-adolescente esquisitinha e sua maior companhia, que está no hospital com leucemia. Nessa vida, Evelyn pode trabalhar em uma livraria que ela gosta, costurar roupas como é seu sonho e viver uma vida feliz na fazenda da família, mas a doença de sua irmã faz com que, mais do que nunca, ela não queira morrer. Queria estar lá, queria ajudar Gracie doando sua médula óssea, como a única compatível entre ela e a mãe e queria ver a irmã ser curada e crescer, e viver uma vida feliz com essa família que ela tanto ama, nesse lugar tão belo. Mas a duas semanas de seu aniversário de dezoito anos, o desespero e a paranoia começam a atravessá-la. Arden a encontrará a qualquer momento, e pode ceifar sua vida antes que ela possa fazer a doação que salvará a vida de sua irmã. Mas onde ele pode estar? Quem ele é? Ela irá reconhecê-lo imediatamente? Se pelo menos matá-lo fosse um jeito de fugir, mas a morte dele é a dela também. E quando ele aparece, surpreendendo-a com sua identidade, inicia-se uma corrida por sua vida. Ela o convence a esperar até a coleta da doação, mas problema atrás de problema parece querer impedi-la de salvar sua irmã, seja o estado de saúde da mais nova, a falta de recursos do hospital para armazenar o material, a falta de um plano de saúde, de clínicas próximas ou de profissionais dispostos, e o tempo vai se esgotando rapidamente, enquanto Evelyn tenta elaborar um plano para sobreviver ao seu aniversário, tirando Arden do caminho. Entretanto, nunca é possível esquecer o amor que ela sente por ele e a vontade de não precisar fugir, e formar um futuro feliz juntos, que parece impossível.
Enquanto acompanhamos as incertezas do presente, também voltamos em várias das vidas anteriores que eles tiveram. Voltando de dezessete em dezessete anos no passado e além disso, visitamos muitos países do mundo, vendo-os viver suas vidas como homens, como mulheres, como pobres, como ricos, tendo existências plenas ou perpassadas pelos piores momentos da história, sendo amantes ou encontrando-se apenas na hora de suas mortes. E assim, vamos descobrindo e reunindo os pequenos pedaços do quebra-cabeça que evidencia porque eles sempre voltam e porque precisam se matar, porque não podem atingir a maioridade, e porque, acima de tudo, eles continuam se amando eternamente.
Confesso que me surpreendi com a explicação de tudo. Levou-nos para um âmbito mais fantasioso, mas mais interessante e complexo, e completou com uma origem da qual nem Arden se lembrava mais, dando-nos uma explicação muito satisfatória de tudo e um senso final de que o amor supera à tudo e pode ser muito maior do que imaginamos. Porque, afinal, é sobre isso que essa história se trata. De amor, puro e inabalável. De todas as faces que ele pode assumir e de todas as dificuldades que ele pode superar. Definitivamente as partes que mais gostei foram as vidas passadas deles. Em diferentes países, falando diferentes línguas, vivendo em diferentes impérios, lutando em guerras, atravessando os momentos sombrios da história do mundo, se encontrando e desencontrando, tão rodeados de culturas diferentes. Queria poder ter visto mais delas, mas sei que não eram necessárias. Já nos mostraram muitas.
Apesar de muitas coisas acontecerem no livro, quando olhamos para o final, percebemos que não são tantas assim, pois tudo gira em volta da questão central, de até onde o amor pode chegar. Pois, enquanto Evelyn se questiona insistentemente se Arden não poderia deixá-la viver, pelo amor deles, Arden se questiona se ela não pode entender que tudo que ele faz é justamente por ela e para preservar esse amor.
Como vê, caro leitor, eu apreciei muito o livro e espero que você tenha se interessado o suficiente para lê-lo e entender mais sobre o lindo e trágico amor que esses dois compartilham pela eternidade.
Espero que tenha gostado deste post. Se sim, deixe uma curtida e um comentário. Se inscreva na minha correspondência para sempre ser avisado quando eu fizer um post novo. E lembre-se de acreditar no amor, sempre.
Adeus, querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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