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A hipocrisia dos mentirosos, em Teia de Mentiras, de Sophie Stava

Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
Ana Julia Carvalho
14 de out.
5 min de leitura
"Teia de Mentiras", Sophie Stava. Editora Jangada, 2025.
"Teia de Mentiras", Sophie Stava. Editora Jangada, 2025.

Apesar da contravenção que os liga, caro leitor, não parece haver um código de honra entre mentirosos. Diferente dos ladrões ou piratas da literatura, que mantém uma ética entre si, mesmo que esta seja relativamente distorcida, os mentirosos não preservam esses mesmos padrões, pois a raiz de seus atos está em sustentar suas muitas mentiras e confiar apenas em si mesmos. Eles ficam enquanto ainda conseguem manter suas inverdades e enganações, mas quando elas caem, e acredite, uma hora elas sempre caem, é criando mais delas que eles constroem suas fugas. 


Desde de 2022, o mundo dos livros de suspense se eriçou com o lançamento do livro, “A Empregada”, de Freida Mcfadden, que gerou uma adaptação para o cinema em 2025 e influenciou a criação de várias outras obras do gênero. Ainda em 2025, a escritora Sophie Stava publicou seu livro “Teia de Mentiras”, com uma história essencialmente muito parecida com a do livro “A Empregada”, mas que se faz diferente em certos pontos interessantes, e que, portanto, culminam em um outro tipo de final.


Tudo começou com uma mentira que parecia inofensiva. Sloane Caraway sempre teve uma vida que ela mesma considerava como desinteressante. Sem ter quase nenhuma informação sobre o pai que ela nunca conheceu, e sendo filha de uma mulher que era faxineira e estava desenvolvendo uma forte artrite ainda jovem, fazendo com que ela tivesse dificuldades no trabalho e precisasse frequentemente se mudar de cidade para fugir das dívidas que acumulava, Sloane não tinha posses e nem perspectivas. Não era especialmente bonita e nem tinha habilidades. Era muito difícil fazer amizades não sendo interessante e trocando constantemente de escola, como ela fazia. Por isso, certa vez, pensando no fato de que nos lugares novos, ninguém a conhecia, ela passou a inventar histórias. Inventava sobre um pai famoso, sobre ser rica, sobre ter tudo que queria, e amava (precisava) daquela atenção que as pessoas lhe davam por isso. Às vezes, suas mentiras se batiam, e ela precisava inventar outras, até ser descoberta, humilhada e ver a decepção da mãe, mas nada disso a desencorajava. Pelo contrário, só a fazia aprender a mentir cada vez melhor. 

Quando adulta, Sloane já era mitomaníaca (pessoa viciada em contar mentiras), embora eu acredite que ela sequer visse isso como um problema a ser tratado com terapia. Ela não tinha a necessidade de mentir, mas não conseguia não fazer isso e assistir com satisfação o brilho que cobria os olhos daqueles que lhe ouviam. 

Certo dia, descansando em um parque em seu intervalo do trabalho, ela viu um homem tão bonito que lhe tirou o fôlego, acompanhado de uma linda garotinha que devia ser sua filha. Completamente fascinada, ela passou a procurá-los toda vez que ía lá, e na terceira vez que os viu, finalmente conseguiu uma oportunidade de falar com eles. A garotinha havia sido picada por uma abelha, e ao ver o desespero do pai, ela se aproximou, como que movida por uma força desconhecida, e disse ser enfermeira, para ajudá-los. Era mentira. Ela era manicure. Não de formação, mas foi só esse tipo de emprego que conseguiu ultimamente. Também disse que seu nome era Caitlyn, apesar de nunca ter conhecido ninguém com esse nome e não saber de onde tirou isso. Após “salvar” a criança, ela descobriu que eles se chamavam Jay e Harper Lockhart, e não precisou de mais nada para perceber que tudo que mais queria era ser a mulher daquele homem. Tentando encontrá-lo nos dias que se passaram, tudo que ela conseguiu foi conhecer a admirável mulher dele, Violet. Não podendo ser mais distante dela, Violet era como o sol. Era radiante, com uma personalidade cativante, com um ótimo cabelo e um jeito de se vestir que combinava muito com ela, além de exalar um tipo de elegância pura. Sloane quis ser amiga dela, quis ter a vida dela, quis ser ela, que era muito mais do que a vida triste e chata na qual vivia. 

Depois de um escândalo com uma mulher que veio ao salão de beleza, que parece ter algo a ver com alguma coisa errada que Sloane fez no passado, e devido as suas muitas faltas e atrasos no trabalho para ir atrás dos Lockhart, Sloane é demitida do salão, mas para cair diretamente nas mãos aveludadas de Violet, que pede de prontidão que ela se torne babá de sua filha Harper. Não podendo estar mais feliz, Sloane (Caitlyn) aceita, mergulhando em uma grande amizade com Violet, e volta, finalmente, ao trabalho com crianças, que é sua verdadeira vocação, e a possibilidade de encontrar-se frequentemente com Jay, pelo qual seus sentimentos só crescem mais e mais. Mas a grande mentirosa se ilude em pensar que ela é, sempre, a pessoa mais esperta do recinto, enganando facilmente à todos. Entre as belas paredes decoradas da casa dos Lockhart e a lindíssima família que eles constituem, parece haver algo podre que se esconde e sussurra por baixo daquela fundação que para Sloane parece tão perfeita e tão sólida. Talvez seja pela predisposição tão grande de Violet para se tornar amiga da babá, sempre gastando dinheiro com ela e até a ajudando a ter uma aparência mais próxima da própria patroa, ou do fato de Jay sempre parecer habitar o limite entre ser muito simpático e estar descaradamente flertando com a moça, que faz com que sintamos que algo fede nessa história, colocando-nos em um total estado de desconfiança. Tudo parece bom demais e só Sloane, tão feliz com sua nova vida, não parece ver isso. As narrativas de Violet e Jay chegam tarde demais, em um ponto onde a babá já está completamente perdida na teia de mentiras que todos trabalharam para construir.


Apesar de realmente ser muito parecido com a obra “A Empregada”, eu gostei do livro e do final que ele nos deu. Ouso revelar que eu o adivinhei, mas é que já estou tão embrenhada em narrativas de suspense, que é difícil não enxergar as pequenas pistas que indicam a verdade. 

Particularmente, não sou fã da protagonista, mas é inteiramente porque não gosto de mentiras, e isso é o que ela mais faz. Da forma como ela conduz sua vida, realmente mostrando que só sabe se valer de inverdades para ser minimamente interessante, e evidenciando que ela claramente tem questões de uma saúde mental deturpada a serem tratadas, cria aquela sensação que eu repudio, de não se apegar ao protagonista, e portanto não ligar para o que vai acontecer com ele. Mas o livro consegue construir muito bem uma atmosfera que nos deixa no completo escuro por muito tempo, sem nenhuma teoria do que acontecerá no final e para onde a história irá caminhar. Mas, pelo menos para mim, a história só fica interessante de verdade quando a narrativa muda para o ponto de vista de Violet, nos mostrando que o buraco é muito mais embaixo do que as “inofensivas” mentiras de Sloane, e que mais de uma trama gira nessa história. 

Talvez eu deva aplaudir a autora. Afinal, ela diz que Sloane não é interessante, e ela realmente é assim, enquanto ela cria uma aura chamativa para Violet, que realmente se prova real, demonstrando sua habilidade em nos fazer sentir exatamente o que ela pretendia ao escrever o livro. E consegue nos levar a um final, que mesmo que seja difícil de acreditar durante a leitura, acaba se revelando como algo bom e satisfatório para quem realmente importa na história. 

Assim, finalizo a resenha da semana, caro leitor. Espero que tenha gostado. Se sim, deixe uma curtida e um comentário. Se inscreva na minha correspondência para sempre ser avisado quando eu fizer um novo post. E lembre-se, nada é tão perfeito quanto parece. 


Adeus, querido leitor.


Com amor, A. J. Carvalho.


 
 
 

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