Um Covarde com C maiúsculo, em O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiróz

Como já deve ter percebido, caro leitor, não sou tão adepta aos clássicos. Sou uma fiel consumidora de Literatura Contemporânea. No entanto, às vezes, dou abertura para que esses textos do cânone literário me convençam do porquê de merecerem suas posições. Alguns que li, só provaram que não merecem, outros fazem seus nomes. Eu não pretendia ler este livro, apesar de já ter feito um trabalho sobre ele na faculdade. Porém, costumo ouvir audiobooks enquanto pedalo, e este estava gratuito no UBook, então, por que não?
Publicado em 1875 pelo ilustre autor português Eça de Queiróz, “O Crime do Padre Amaro” é um dos livros mais famosos de toda a sua vida literária. Estando na linha tênue entre Português de Portugal e um Português arcaico, o audiobook não é a mídia mais fácil de se compreender. Houveram muitas palavras que não reconheci, me deixando confusa em alguns momentos, mas, com suas diferentes vozes, faz-se algo divertido de escutar.
Mas, enfim, falemos dele. Do maldito. É até irônico chamar um padre, um “homem santo”, de maldito. Mas é o que ele é. E o que sua hipocrisia, e o crime que comete, o tornam.
Tudo gira em torno dele. De Amaro. Parido magrinho, meio amarelado, de uma criada na casa de uma proeminente dama portuguesa, que faleceu logo cedo, Amaro foi deixado para ser criado na casa da patroa de sua mãe. Afeiçoada a criada, chegando a considerá-la uma amiga, a patroa criou Amaro como um bichinho de estimação, e destinou-o ao seminário. Amaro sempre teve uma inegável atração pelo ofício sacerdotal, não pelas funções em si, mas por como isso fazia com que as pessoas o venerassem, como um emissário de Deus na terra. Entretanto, desgostava enormemente das limitações que o colarinho lhe impunha. Mantinha desde novo um interesse luxurioso pelas mulheres, chegando a ver sensualidade em imagens da própria Virgem Maria, e a perpetrar atos carnais com uma criada dos arredores do seminário. Quando adulto, almejava cargos elevados na vida eclesiástica, sempre pensando em seu conforto, apesar de se fingir de humilde. Com falta de ligações próprias, recorreu à Condessa de Ribamar, a filha de sua benfeitora, para que ela pedisse ao marido um bom cargo para Amaro. Então, com o recente falecimento de um padre da paróquia da cidade de Leiria, Amaro foi para lá enviado, ocupando o cargo. O Cônego Dias, um dos sacerdotes mais elevados da comunidade, arranjou para ele o aluguel de um quarto na casa da Dona Joaneira, uma mulher acolhedora e respeitável da cidade, que criava sozinha sua filha, que agora contava vinte e um anos, Amélia. Podia ser pelas acomodações baratas, mas confortáveis, da ótima comida servida na casa, da hospitalidade da anfitriã, da receptividade e atenção dada por todas as barulhentas amigas da senhora, que frequentemente se reuniam em sua casa, mas, em verdade, foi por ela que Amaro se acomodou tanto naquele lugar.
Agora falemos dela, a vítima da história. A bela e querida Amélia. Ela nunca teve chance contra ele. Se apaixonou por Amaro assim que o viu, e causou o mesmo efeito no padre. Amélia sempre teve uma enorme reverência à religião e a tudo que a envolvia, como se pudesse ser apaixonada por Deus. Acredito, que justamente por não o poder ser, ela se apaixonou por seu sacerdote, e pela representação divina e absoluta que ele era para ela. Ela já tinha João Eduardo, um escrevente do cartório que era abertamente apaixonado por ela e que passava todo o tempo que podia em sua casa, com o qual ela pensava em se casar, mas depois que o pároco surgiu, ela não mais pensou no outro. Era tão pura. Uma moça de família, bem educada, que tentou resistir ao arrebatamento que sentiu pelo padre, acreditando que ele não a correspondia. Mas esse era o problema, ele a correspondia, sim. Mas Amélia sempre soube que, se envolvendo ou não com Amaro, ele definitivamente seria sua ruína.
Eles resistem por um tempo. Com charmes aqui, toques inocentes ali. Chegam a enfrentar um escândalo em relação a um certo folhetim que é publicado anonimamente no jornal, difamando os padres da comunidade, despertando a fúria dos sacerdotes contra o desconhecido. Nada que não seja superado com alguns dias de monotonia do século XIX (kkkkkkkkk). Mas, em dado momento, Amélia e Amaro realmente se tornam conscientes dos sentimentos um do outro, e isso os faz começar uma relação acanhada, com poucas chances de trocar carícias. Coisa que ela evita, em nome de sua honra. Mas isso para de ser o suficiente para Amaro, e armando todo um espaço de fugas semanais para os dois, ele a persuade a encontrá-lo frequentemente, e intimamente. E esse é o prenúncio do fim.
O pior que podemos imaginar acontece, os dias passam a ser uma tensão eterna, com segredos e mais segredos, artimanhas para esconder as coisas e o envolvimento em intrigas, até chegarmos no fim deplorável e na escapada dos culpados.
Você sabe, caro leitor, que não posso revelar o fim. Não posso dar spoilers. Na medida que é possível evitar spoilers de um livro do século XIX que se pode achar informações em qualquer lugar, mas você entendeu.
Apesar de ter gostado, tenho que admitir que em geral, é um livro monótono. São páginas e páginas de pensamentos intrusivos, encontros de jogo, jantares, discussões religiosas e coisas do tipo. A ação mesmo acontece em pontos bem definidos. Mas achei o livro agradável de se ouvir, apesar do final ser frustrante. Afinal, é exatamente o que o título nos alertara. Não há o que esperar além disso. Exceto, apenas, a revolta com Amaro. Ele é tão, tão, egocêntrico. Nada mais no mundo importa além dele e das coisas que ele quer. Ele é daquelas maçãs podres que apodrecem o cesto. Se ele estiver de um lado, eu estou do outro.
Enfim, acho que você já entendeu. Espero que tenha se interessado pelo livro. Acho sempre bom ter um ou outro clássico no repertório. O meio acadêmico adora eles. Se gostou do post de hoje, deixe uma curtida, faça um comentário. Se inscreva na minha correspondência para sempre ser avisado quando um post novo surgir. E lembre, nem todos os padres são de Deus. Acima de tudo, eles ainda são apenas homens.
Adeus, querido leitor. Com amor, A. J. Carvalho.



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