A facilidade de cometer o mal no século XIX, em Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da rua Fleet, de T. P. Prest e J. M. Rymer
- Ana Julia Carvalho
- 6 de mai.
- 5 min de leitura

Talvez você conheça, caro leitor, a história do barbeiro Sweeney Todd por meio do filme com Johnny Depp e Helena Bonham Carter, ou pelo musical da Broadway de mesmo nome, mas o que talvez você não saiba, é que a história original foi escrita na Inglaterra do século XIX, e que é uma Penny Dreadful. O que é isso? Você deve estar se perguntando. Na época, a sociedade inglesa tinha a leitura de literatura como algo feito apenas para a elite, pois eles eram os que podiam e “mereciam” usufruir de tais coisas, enquanto as classes baixas deveriam se contentar com seus trabalhos, até porque, muitos deles nem sabiam ler. Por isso, o material literário era pouquíssimo acessível e na busca para popularizá-lo, o subgênero de romance Penny Blood foi criado. As penny bloods eram publicações periódicas semelhantes ao folhetim, no modelo de jornal impresso. Cada capítulo era vendido por um centavo de libra, o chamado penny, um preço acessível para a classe trabalhadora. Com uma linguagem correspondente ao consumo da massa, elas contavam histórias de horror que se passavam nos grandes centros urbanos (por isso penny bloods, pois eram baratas e sangrentas), tendo entrado em circulação por volta de 1830. Apesar de muito populares, sempre gerando grande ansiedade nos consumidores pela próxima publicação, com o passar dos anos, o público adulto que consumia o gênero passou a migrar para os jornais dominicais, e os periódicos passaram a ser mais lidos por adolescentes. Na tentativa de suavizá-las para os novos espectadores, as penny bloods foram adaptadas para histórias ainda com um tom macabro mas mais aventureiro, que interessasse jovens, e assim foram rebatizadas de Penny Dreadfuls, comercializadas a partir de 1860. E publicado pela Editora Wish, em 2018, podemos observar, com ótimas contextualizações e ilustrações, a origem de obras tão famosas.
A famosa história começou originalmente sob o título “O Colar de Pérolas” e acredita-se que tem inspiração de textos franceses. A autoria é, de certa forma, misteriosa, pois como na época esses periódicos não eram assinados, especula-se que o autor pode ter sido Thomas Prest ou James Rymer, que trabalhavam para o jornal que as publicava.
Não espere, caro leitor, algo tão parecido com o filme, pois tirando um ou outro personagem e as grandes revelações do enredo, a história se faz bem diferente do conhecido. Aqui, seguimos enredos de vários personagens, até que suas vidas colidam umas com as outras.
Havia uma barbearia na rua Fleet, lar de Sweeney Todd, um homem excentricamente medonho, com uma aparência vil e uma risada tão assustadora que nem o parecia, e que incomodava todos aqueles que tinham o desprazer de ouvi-la subitamente. Sendo conhecido como um barbeiro extremamente habilidoso por seus clientes frequentes, aparentemente ninguém, além de seu assistente, o jovem Tobias Ragg, parecia perceber que havia algo de muito errado com o barbeiro. Além de um homem absurdamente agressivo, oralmente e fisicamente, o barbeiro também parecia suspeito. Apesar de fazer com que seu assistente dormisse na barbearia, em um regime similar a escravidão, ele nunca deixava que Tobias olhasse atrás de alguns armários e portas do imóvel, e quando novos clientes, que pareciam endinheirados, apareciam, ele sempre mandava o jovem ao mercado comprar algo totalmente aleatório, as vezes sem sequer dar-lhe dinheiro, e quando o mesmo abria a boca para perguntar qualquer coisa, ele o espancava. E Tobias perguntava muito, pois ao voltar, os clientes sempre haviam desaparecido, e apesar de o barbeiro dizer que tinham ido embora, era muito estranho que inexplicavelmente eles sempre esquecessem algum de seus pertences para trás. No começo da história, um sujeito, que descobrimos chamar-se Thornhill, chega com seu cachorro, Hector, à barbearia de Sweeney Todd. O cachorro claramente sente algo ruim no homem estranho e se mostra reativo à ele, fazendo com que seu dono precise deixá-lo do lado de fora para barbear-se. Enquanto o serviço era feito, o homem contou ao barbeiro que havia acabado de chegar do mar e que precisava contar para uma tal de Johanna Oakley, filha de um oculista, que seu amado, Mark Ingestrie, havia morrido no oceano e que tinha um valioso colar de pérolas que o mesmo clamou para que fosse dado à ela, para dar-lhe a vida que ela merecia. Com o relato, Todd mandou que Tobias fosse ao mercado comprar algo e quando o jovem voltou, o cachorro ainda esperava na porta, o chapéu do homem ainda estava em cima de um móvel, mas o cavalheiro sumira. E esse acontecimento desencadeia todo o resto de nossa história.
Preocupados com o sumiço de seu amigo, um honrado militar indiano e o capitão do navio no qual viajavam, desembarcaram e decidiram procurá-lo, guiados pelo cachorro inseparável do homem, que veio buscá-los no cais e os levou para a porta do estabelecimento na rua Fleet. Recusando-se a deixar o lugar, mesmo que insistissem que seu dono havia partido para outro, lá o canino fica. Com toda essa estranheza, uma investigação amadora é posta em prática, e não importa aonde vão, tudo parece sempre voltar para aquela estranha barbearia.
Temos, também, a bela e adorada Johanna Oakley, que naquele dia esperava a notícia de seu amado, que havia partido há dois anos e devia se pronunciar nesse dia, ou então significaria que ele morrera na missão até as Índias, que visava a conquista de riquezas, para casar-se com sua querida Johanna. Desolada pelo silêncio que recebeu, a moça se afunda no desespero absoluto, acreditando que a vida não possuía mais sentido. Mas, avisada pelo oficial indiano, sobre o desaparecimento do homem que deveria dar à ela notícias sobre Mark, Johanna decide esperar por mais desdobramentos de sua história, tentando manter-se otimista.
Há o eterno dilema de Tobias Ragg, que suspeita de que seu patrão seja um criminoso, mas controlado pelo medo e pela ameaça constante que o mesmo faz ao bem estar da pobre mãe do jovem, ele se vê incapacitado de pedir ajuda, até que Sweeney Todd dá um jeito de calá-lo permanentemente.
Por outro lado, temos a famosa loja de tortas da Sra. Lovett, que produz fornadas e mais fornadas de deliciosas tortas de porco e de vitela, que chamam uma imensa clientela, que sempre preenche o espaço em todas as horas do dia, até não sobrar um único alimento para vender. No entanto, há algo estranho nos sorrisos simpáticos da mulher, dirigidos apenas para os clientes que dispensam fortunas em sua loja, e no fato de ninguém nunca ver um cozinheiro sequer, em um estabelecimento que produz em larga escala.
E aquele cheiro horrível que sai do chão da Igreja de St Dunstan? Os mortos que estão enterrados lá já residem há muito tempo, e não podem ser o motivo para o mau odor, então o que é que está trazendo o aroma de podridão debaixo da terra?
Claro, há outras coisas menores, tentativas de negociação de jóias sem procedência confiável, um manicômio que aceita internar qualquer um por pouco dinheiro, um novo cozinheiro para a Lovett’s que descobre que nem tudo é perfeito em seu novo emprego, e tramas atrás de tramas para enganar uns e desmascarar outros…
Nesta cidade, à la Jack, o estripador, tudo parece acontecer com muita facilidade. O assassinato, o roubo, o sequestro e até o canibalismo parecem coisas comuns, pois acontecem com tanta frequência e ninguém presta atenção o suficiente para reparar, e com um homem tão maquiavélico e calculista como Sweeney Todd, andando por aí como se o mundo estivesse na palma de sua mão, é difícil manter a sanidade intacta ou a segurança em relação a, bem, basicamente qualquer coisa.
Breve, sim, mas necessário, caro leitor, pois nem tudo pode ser revelado em uma resenha. Apesar de não ter gostado tanto quanto do filme, achei sim uma história bem interessante e que com certeza deve ter sido um escândalo na época de sua publicação. Espero que tenha se interessado e procure ler a deslumbrante edição que temos disponível no Brasil.
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Adeus, querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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