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Precisa mesmo chutar cachorro morto?, em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

  • Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
    Ana Julia Carvalho
  • 20 de mai.
  • 6 min de leitura

Capa da edição de Graphic Novel da Editora Rocco.
Capa da edição de Graphic Novel da Editora Rocco.

A excepcional Literatura Brasileira não é algo ao qual eu seja muito afeiçoada, caro leitor. Não por acreditar que ela é inferior ou algo do tipo, pelo contrário, tenho certeza de se tratar de algo exímio, no entanto, não são tipos de gêneros e características que aprecio muito. Mas, vez ou outra, meu universo colide com essa literatura, dessa vez na forma de um clube do livro, e acabei realizando a interessante leitura do livro “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector. Publicado em 1977, o livro contém pouquíssimas páginas, umas sessenta, e uma linguagem particularmente complicada para quem não está acostumado com. Sendo meu primeiro livro de Clarice, surpreendi-me com sua escrita, que eu classificaria quase como “neuro divergente”, se fosse possível classificar um modo de escrever assim. É uma metalinguagem que vai, que volta, que discute sobre si mesma, que em um momento é de um observador externo e no outro, pensamentos e reflexões internas, fala sobre a personagem principal e então fala sobre o narrador. Se não entender rápido, pode até confundir. 


Mas falemos dela, de Macabéa. O livro dá-lhe tão pouca importância que só descobrimos seu nome depois de ⅓ da obra. Na verdade, não se trata nem da falta de importância, mas de uma ignorância que quase beira o desprezo. Narrada por um tal de Rodrigo S. M., um escritor classe média, penso agora que o observador da história se trata, na verdade, da morte, pois apesar de parecer ter uma história e experiências humanas, além do fato de ser apaixonado por Macabéa, ele nunca a conhece realmente, e não havia como saber tanto da vida e dos pensamentos íntimos de alguém sem ser algo que transcende o natural. E totalmente contraditório a alguém que ama, é a insensibilidade com a qual ele trata tudo que permeia a moça. Muito distante, se formos realmente considerar que o narrador é o ceifador, de, por exemplo, o livro ”A Menina que Roubava Livros”, de Marcus Zusak, onde, apesar de ser a personificação da morte, e ser incapaz de sentir as coisas como os humanos sentem, o narrador sempre é muito atencioso com a protagonista, quase se afeiçoando à ela. Por outro lado, a ideia mais lógica, seria que o narrador é apenas um alter-ego para a própria Clarice, que não se vale de nenhuma, friso, nenhuma, sutileza em relação à própria protagonista, o que é uma pena, pois acredito que tudo que Macabéa mais precisava na vida, era de um pouco de sutileza. 


Migrante nordestina no Rio de Janeiro, pobre e pouco instruída, Macabéa era, em todos os sentidos, uma pária. O narrador, apesar de aparentar desprezar toda sua existência, parece ter se compadecido dela e assim ficado obcecado por aquela mulher que instigava tão pouca curiosidade. Conta-nos que, perdendo os pais ainda nova, Macabéa foi criada por uma tia que nunca lhe direcionou amor, criando-a de maneira dura e precária, todavia, por ser tão ingênua, a menina acreditava que era apenas o modo de se preocupar da parente. Isso é mais um ponto a se pensar. Macabéa é quase que obviamente neuro divergente, coisa que o narrador descreve como uma imbecilidade pura, mas que com certeza tem razões mais profundas, e que faz com que ela nunca entenda realmente as outras pessoas, não compreenda muito das regras da sociedade, impossibilita-a de pensar profundamente em qualquer assunto ou a importar-se com as questões mais simples de si própria. Depois da morte da tia, em algum momento ela migrou para o Rio, e apesar de ser meio analfabeta, aprendeu a datilografar, tornou-se datilógrafa e assim como tudo na vida, fazia isso mal, sem notar. Ela nunca notava nada. Era apaixonada pelo próprio chefe e sentia-se grata por respirar o mesmo ar que ele. Vivia na escassez, morando em um lugar com outras garotas, em condições quase precárias. Não sabia se arrumar, e até se soubesse, não teria dinheiro para isso. Estava sempre meio suja, fedida, apagada e desarrumada. Talvez houvesse alguma beleza no rosto atrás do aspecto sujo, ou um corpo sedutor, escondido pela magreza extrema da carência, mas ninguém nunca parou para ver. Não chamava atenção, não se dava luxos, pois nem sabia que deveria almejá-los e apesar de querer ter mais, não se permitia ter muita inveja, pois isso era feio. Apesar de ter um estômago sensível, muito propenso a passar mal, sempre evitava vomitar, pois isso era desperdício de comida. Já estava para ser demitida, mas a dó que o patrão tinha de seu aspecto, o fazia reconsiderar com frequência. Não tinha amigos, apenas uma ou outra conhecida no trabalho e em casa. Por isso, caiu tão facilmente quando conheceu Olímpico de Jesus. Com uma aparência pouco atraente e uma personalidade questionável, não se pode dizer que ele sequer cortejou-a, além de ressaltar todos os pontos desagradáveis dela, mas foi o único que pareceu ver-lhe, então facilmente capturou-a em seus dedos pegajosos. Com aspirações políticas, tudo que deixava os lábios do homem não passavam de ladainhas convencidas de alguém que se acha superior à outros. Era ordinário e nada fazia para agradar Macabéa, mas em sua insignificância, ela já acreditava que ele fazia muito por sequer ir vê-la, apesar de não gostar de nada que a envolvesse. Como o criminoso de moral inexistente que era, ele podia muito bem ter lhe roubado ou feito mal maior que partir seu coração, mas o que ele teria a roubar? Nem dignidade ela parecia ter. Mas ainda sim, ele a prejudicou da maneira que conseguiu. Quando Macabéa apresentou à Olímpico, Glória, sua amiga do trabalho, o mesmo automaticamente dispensou-a de sua vida. Glória era cheia de curvas, dadas pela fartura do negócio de sua família, era bem cuidada e esperta, tudo que Macabéa não era ou tinha. Ela estava muito mais perto do padrão ao qual o cafajeste acreditava pertencer, e ela, tão sem princípios quanto ele, reconheceu-se num romance, aceitando facilmente roubar o “namorado” da amiga, sem sentir remorso algum. A pobre e ingênua nordestina, apesar de ficar arrasada, jamais poderia dizer algo, não era de reclamar das coisas e talvez já estivesse acostumada a entender que não tinha nada, enquanto outros tinham tudo. E mesmo que soberba em relação a sua superioridade, em algum momento, Glória compadece-se de Macabéa e empresta-lhe um dinheiro para que a mesma vá até sua cartomante e encontre alguma esperança em seu futuro. 

Macabéa permite-se alguns luxos, que não o são de verdade em absoluto, com o dinheiro de Glória e encontra as tais esperanças com as previsões extremamente positivas da velha e promissora ex-cafetina que se tornou cartomante para expressar aquilo que Jesus lhe contava sobre os outros. Seu futuro seria brilhante, cheio de fartura e felicidade, e a mudança já havia de começar, assim que ela saísse pela porta. A moça nunca fora tão bem cuidada por alguém ou ouvira verdades tão certeiras sobre sua vida, e já sentia a diferença dentro de si. Foi só atravessar a porta, sonhando com sua felicidade, que ela realmente foi de encontro ao seu triste e ordinário destino.


Entendo que a vida de Macabéa era realmente muito miserável, exacerbada pela própria diminuição mental que ela tinha de tudo, principalmente de si mesma, mas era mesmo necessário tratar tudo com um tom tão impiedoso? Não há porque suavizar uma vida tão vazia, mas é necessário piorá-la? Eu entendo que causa um efeito interessante, do próprio narrador desprezá-la tanto quanto a vida, mas assim como qualquer outro, ela merecia gentileza. Merecia um fim diferente, que a recompensasse por todas as durezas pelas quais passou. O narrador ainda tem a coragem de enganar o leitor. Afirma que apesar de péssimas, as coisas não irão piorar, e então pioram, mostrando que assim como não respeitava Macabéa, ele também não respeita o que sentíamos por ela. 

Embora tenha me decepcionado e entristecido, tento consolar-me ao pensar que vimos Macabéa, que enxergamos sua pobre existência e que por um momento, ela foi importante para alguém. Um número imensurável de pessoas levam a mesma vida que ela, e assim como ela, nada nunca melhora, e elas são ignoradas pela sociedade, pelas pessoas em classes econômicas mais confortáveis e pelas instituições que poderiam ajudá-las. Macabéa é apenas uma em um milhão, quase sem nome e capaz de desviar olhares para longe, quando cruzam com ela na rua. Mas ela existiu, mesmo que na ficção, e seus observadores lembrarão dela. 


Não quis baixar o astral, caro leitor, mas a vida é dura e às vezes não pode ser suavizada. Espero que tenha se interessado em saber mais sobre a história de Macabéa e sobre a marca que ela não deixou no mundo. Se gostou da matéria de hoje, curta a postagem e se inscreva na minha correspondência para sempre ser avisado quando eu fizer um novo post. Siga o instagram @apenaeopapel para saber mais sobre. 


Adeus, querido leitor. 


Com amor, A. J. Carvalho.


 
 
 

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