As monstruosidades cometidas pelo poder, em Intrigas da Corte, de Elizabeth Fremantle
- Ana Julia Carvalho
- há 7 dias
- 7 min de leitura

Apesar de não lê-las com muita frequência, Caro leitor, às vezes me dou o prazer de mergulhar em uma ficção histórica, que me dá mais ensinamentos do que qualquer livro, que a matéria em si, possa me dar. E gratifico-me sabendo que é por meio da literatura que aprendo não só fatos históricos, mas também a sentir o período e seus acontecimentos, e do começo ao fim das páginas, posso viver como aqueles que sentiram tudo nas próprias peles. Assim, já vivi centenas de vidas, em múltiplos mundos e com tantas personalidades e aparências diferentes. Presenciei os passados, os presentes, os futuros e as impossibilidades, sentindo as mais radiantes das felicidades e as mais dolorosas tristezas, guardando-as em meu ser.
Este livro trata-se apenas de um tipo de reconstituição da realidade, que faz-se fantasiosa, pois a verdade morre com aqueles que a viveram, deixando-nos apenas a possibilidade de especular sobre. Mas os fatos que aqui narrarei, com exceção dos pensamentos particulares das personagens, são todos reais e podem facilmente ser confirmados por você em uma rápida busca na internet. Portanto, falemos sobre eles.
Escrito por Elizabeth Fremantle e publicado em 2017 pela editora Paralela, o romance conta-nos a trágica vida de duas irmãs da linhagem real da Inglaterra e as desgraças que se abateram permanentemente sobre sua família. Apesar de não terem, necessariamente, almejado o trono inglês, as irmãs Grey viram-se perto demais dele, e isso foi-lhes a ruína. Em 1554, após a morte de Edward VI, filho de Henrique VIII, a Inglaterra viu-se em completo desespero, sem um herdeiro homem e correndo o risco de que Mary Tudor, irmã mais velha do falecido rei e filha de Catarina de Aragão da Espanha, viesse cobrar seu direito ao trono e transformasse o país, que agora era protestante, em um país católico novamente. Querendo evitar tal tragédia, um planejamento é feito entre diferentes famílias, que resulta no casamento apressado da primogênita das Grey, Lady Jane Grey, bisneta do rei Henrique VII, com Guildford Dudley, e sua ascensão ao trono. Mas seu reinado durou apenas nove dias, pois Mary Tudor chegou com seu exército, apoderou-se da coroa, restabelecendo o catolicismo como a religião da Inglaterra, fazendo com que muitos tivessem que esconder suas crenças, e ordenando, em comunhão com as decisões do imperador espanhol, pai de seu futuro marido, a execução da pobre e inocente Lady Jane Grey. Não quero falar muito de sua execução, pois é deplorável que se mande decapitar uma garota de dezessete anos pelas decisões que outros tomaram em seu nome, mas tenho que dizer que é horripilante, como entre muitas outras coisas, que tenham vendado-na e deixado-a procurar às cegas pelo apoio onde ela deveria colocar o próprio pescoço para que fosse degolada. Nesse movimento, seu marido foi esquartejado e seu pai e outros que fizeram parte da trama também foram executados como traidores. Não é à toa que Mary I ficou conhecida como “a sangrenta”.
As sobreviventes, Lady Katherine e Mary Grey (as irmãs mais novas de Jane), juntamente de sua mãe, Frances Grey e a querida amiga delas, Levina Teerlinc, que era pintora na corte, passam a viver em um regime de terror, sendo obrigadas a residir na corte, por serem as primas mais próximas da rainha, estando marcadas como integrantes de uma família de traidores, e a todo tempo sob a ameaça velada de serem as próximas no cadafalso, se a rebelião prostestante quisesse colocá-las no trono. O único alívio que tinham, era o fato de que, na frente de seus nomes para assumir o trono, estava o de Elizabeth Tudor, protestante assumida, irmã de Mary I e filha de Ana Bolena, que a rainha mandou isolar para evitar que pudesse ser usada para substituí-la.
As intrigas são muito fáceis, com Katherine mal sabendo se calar, enquanto busca restabelecer seu casamento com Harry Herbert, que foi anulado, devido à família do mesmo que não queria associar-se mais com as Grey, que caíram em desgraça, e com a nova inquisição católica, estabelecida por Mary I, que tinha o intuito de expurgar a Inglaterra de todos os protestantes, fazendo da vida uma travessia na corda bamba. As duas irmãs Grey, sendo Katherine o auge da beleza real, com a cabeça sempre no amor e em si própria, e no completo oposto, Mary, uma garota extremamente inteligente e perspicaz, mas que era desprezada por ser concurda e extremamente baixa devido a sua má-formação, considerada pelos religiosos como uma obra do Diabo, enfrentaram extremas dificuldades nos cenários que foram colocadas, esperando pelo dia em que finalmente poderiam viver em paz.
Esse dia pareceu chegar após os quatro anos de reinado de Mary I serem finalizados, com sua morte, no entanto, quando Elizabeth assumiu, as Grey não puderam aliviar-se, pois apesar de ter restituído seus bens, esta não gostava nem um pouco de Katherine, e fez questão de excluí-la da seleção de suas damas e mantê-la sempre à margem da corte. E não querendo isolar-se com sua irmã e mãe, que conseguiram se afastar por meio do novo casamento de Frances Grey, Katherine passa por grandes dificuldades até finalmente ser readmitida como dama de companhia e ganhar o mínimo respeito, no entanto, pela falta de pretensão de se casar, com todo o país pedindo por um herdeiro e sendo ameaçada por Mary Stuart, rainha da Escócia, que por ter sangue Tudor, também almejava seu trono, Elizabeth mantém Katherine por perto apenas para estar de olho em seus inimigos, pois a Inglaterra pode decidir que mais do que uma mão de ferro, ela precisa de uma rainha que possa produzir varões que herdem o trono, coisa que sua prima mais jovem provavelmente poderia e quereria fazer.
Anos de instabilidade e contenção se seguem, com as estratégias e relações políticas fervilhando, enquanto golpes pareciam sussurrar pelos cantos, e a questão de quem sucederia a rainha em seu reinado reverberava por todo o país. Talvez o final trágico que essa história tem não tivesse acontecido se Katherine não tivesse se apaixonado pelo irmão de sua melhor amiga, Jane Seymour. Mas talvez, nem o próprio Edward Seymour, Conde de Hertford, fosse capaz de resistir ao charme de sua amada Kitty. E foi do amor deles, que manteve-se escondido por tempos, até que ambos se casassem em segredo, pois Elizabeth jamais teria autorizado, que o problema atingiu seu ápice. Katherine ficou grávida, e com Hertford mandado para o estrangeiro, com intuito de ser afastado dela, pois muitos podiam ver que algo entre os dois estava acontecendo, o desespero instaurou-se. Meses de apreensão se sucederam, mas em certo ponto, não havia mais a possibilidade de esconder o fato, e a rainha mandou que prendessem-na na Torre de Londres, para um inquérito em relação à seus infortúnios. Pouco depois, Hertford também foi trazido e enclausurado lá, separadamente. Compadecidos pela bela e gentil jovem em estado avançado de gravidez, que não merecia estar ali, os guardas davam-lhe muito conforto, possibilitando até que ela encontrasse seu marido esporadicamente, o que resultou em uma segunda gravidez, no afastamento de todos os funcionários, na separação dos lugares de clausura e em um tratamento muito mais rígido. E apesar dos dois comprovarem que o casamento realmente aconteceu, a rainha ignorou todos os fatos, acreditando tratar-se de uma união política e não por amor, e anulou a união deles, considerando seus filhos como bastardos, assim tirando-os a possibilidade de herdar a coroa. E não apenas isso, como os manteve permanentemente presos, até que um dos dois falecesse. No caso, veio a ser Katherine, que pereceu oito anos após sua injusta prisão, pois, com a sanidade já muito deteriorada, ela tornou-se extremamente religiosa e deixou-se morrer de fome, como forma de redimir seus pecados. Ela tinha apenas vinte e oito anos. E sua irmã, Mary, teve quase o mesmo fim. Após tanto lutar para promover a soltura de sua irmã, a única coisa que conseguiu foi que Elizabeth aceitasse não executá-la. Vivendo tristemente na corte, por anos sem poder ver a única de sua família que lhe sobrou, já que a mãe das duas também havia falecido pouco depois da ascensão de Elizabeth ao trono, Mary finalmente encontrou o amor, no chefe porteiro do castelo, que apesar de ter um nascimento inferior, era o único que via-a como era. Sabendo das reações da rainha, também optou por casar-se secretamente, acreditando que não seria punida, por não apresentar ameaças a monarca, devido a sua deformidade, no entanto, foi igualmente presa, como aviso para aqueles que pensassem em cometer traição contra a Inglaterra. Também passando anos enclausurada, foi liberta apenas em 1571, devido ao falecimento de seu marido. Só então pôde finalmente conhecer seus sobrinhos. Como um conto da realidade, e não ficção por inteiro, não temos final feliz, apenas a dura verdade da vida.
Apesar de ter gostado bastante do livro, devido a satisfatória escrita da autora, é claro que a verdade dos fatos apenas entristece. Pensa-se que tudo na realeza possui uma beleza esplendorosa, no entanto, por dentro, podemos constatar que se trata de um ambiente sujo e impiedoso, cheio de traições e tramas atrás de poder, onde pessoas decentes são engolidas e ou corrompidas. As próprias monarcas, Elizabeth I e Mary I, com certeza endureceram devido às dificuldades que elas próprias tiveram que enfrentar antes de chegarem ao trono. A coroa é uma bênção, almejada por todas, e ao mesmo tempo, a maior das maldições, que coloca quem a possui em um estado de fragilidade comparada ao vidro. E, atrás dela, apenas pelo movimento de homens gananciosos, todas as mulheres de uma família foram sentenciadas à desgraça e a mortes tristes e solitárias. O poder corrompe as pessoas de formas imensuráveis, deturpando-as do sentido de certo e errado e borrando os limites da humanidade e consciência. Apesar da história das Grey ser terrível, é mais um dos horrores que aconteceram por entre os séculos. Alguns são conhecidos e outros nunca serão revelados. A única esperança que podemos ter é que a raça humana aprenda com a história e faça de tudo para não repeti-la, mas o homem, em geral, possui uma grande tendência a esquecer os crimes do passado.
Talvez o livro não seja tão verdadeiro em relação a como elas eram, até porque, afinal, como poderíamos saber? Mas simpatizei muito com as irmãs Grey e fico verdadeiramente desolado pelo destino que tiveram. Sei que meus sentimentos não as auxiliam em nada, obviamente, mas gosto de pensar que, seja lá onde suas almas estiverem, gratificam-se com a ideia de que pessoas reconhecem a inocência delas, que morreram defendendo quem eram e suas verdades.
Espero que tenha gostado do livro, Caro leitor, e que interesse-se por história, assim, juntos, podemos reparar erros cometidos por aqueles que nos antecederam.
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Adeus, Querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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