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Encontrando o surreal, em Contos fantásticos do século XIX, escolhidos por Italo Calvinov

  • Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
    Ana Julia Carvalho
  • 25 de mar.
  • 8 min de leitura

É indispensável, caro leitor, que contemplemos, às vezes, se há loucura nas coisas ou se a loucura se encontra em nós. No terceiro e no quarto conto do livro “Contos fantásticos do século XIX”, escolhidos por Italo Calvino, que já abordamos na semana retrasada (leia o post anterior por esse link: https://www.apenaeopapel.com/post/os-dois-primeiros-de-contos-fant%C3%A1sticos-do-s%C3%A9culo-xix-escolhidos-por-italo-calvino), podemos identificar ambos os tipos de delíreos. 


Em “O Homem de Areia”, o conto mais famoso de Ernst Theodor Amadeus Hoffman, publicado em 1817, nosso protagonista, Natanael, um estudante, narra, por correspondências para sua noiva e o irmão dela, o real motivo de suas recentes perturbações. Quando o mesmo era uma criança, apesar de não passar muito tempo com o pai, ele o admirava e estimava muito, mas entristecia-se nas noites em que tinha a presença do genitor no jantar, pois sempre que o relógio atingia uma certa hora, sua mãe apressava-se em levar ele e seus irmãos para a cama, afirmando que o Homem de Areia estava se aproximando. Apesar de teimar a crer na história, ele via o medo e desconforto no olhar de sua mãe, que só foi reafirmado quando a empregada contou-lhe que o Homem de Areia vinha para roubar os olhos das crianças que não estavam na cama. E com essa lenda, criou-se um verdadeiro pavor dentro dele, que o levou a busca da validação, por meio da fuga da tentativa de proteção de sua mãe, e de seu plano de se esconder no escritório de seu pai para entender o que era a coisa que fazia o barulho de passos pesados no corredor, tarde da noite. Mas, Natanael surpreende-se ao descobrir não se tratar de um monstro, e sim do terrível Coppelius, o amedrontador advogado de seu pai, que sempre era maldoso com os filhos de seu cliente. No entanto, os homens começam atividades estranhas, quase ritualísticas, que assustam o menino, revelando sua posição. Irritado com sua presença, o advogado o agarra, prometendo arrancar seus olhos, mas é impedido pelo pai da criança, que clama pelo contrário. Em estranha misericórdia, Coppelius declara que irá poupá-lo, mas apenas para que ele tenha olhos para chorar pelas desgraças que lhe aguardam no futuro. E assim, Natanael cresce, com um intenso terror da imagem que ele criou do advogado, que é reforçada quando conhece um vendedor de barômetros, chamado Coppola, que ele tem certeza se tratar do monstro que assombra seus pesadelos. Perturbado, e causando preocupação em seus familiares devido a sua obsessão, Natanael volta para casa, onde encontra consolo em sua amada noiva, Clara. Não sendo necessariamente considerada bonita, mas possuindo uma personalidade sagaz que cria uma beleza estonteante em sua presença, Clara não aceita ver seu querido noivo perdendo-se em paranóia, e frequentemente discute com ele para que o mesmo entenda que o monstro não é real, e que reside apenas em sua mente. E após quase romper a promessa de união, Natanael decide tentar esquecer o homem, e retorna para a cidade onde mora para estudar. E é com grande surpresa que, ao conhecer a belíssima filha de seu professor, que mora na frente de sua casa, o homem permita-se receber o vendedor de barômetros, para que o mesmo venda-lhe uma luneta, que o permite observar melhor a esplêndida formosura e simetria da mulher, que passa o dia todo sentada, completamente imóvel, em frente à uma janela da cozinha. Natanael admira-se tanto, que esquece o vendedor, de Clara, e de qualquer outra coisa que não seja a bela e estática Olímpia. 

Um dia, após tanto observá-la, Natanael é convidado pelo professor, junto de muitos outros de seus colegas estudantes, para comparecer à um baile que pretendia inserir a dama na sociedade. Vendo-a cantar e dançar com rigidez e esquisitice, ele apenas afunda-se mais em sua paixão e desejo enlouquecedores. E ao abordar Olímpia, ela o olha com olhos que refletiam amor recíproco, e enquanto ele falava e se declarava, ela apenas arfava, sem palavras. Assim inicia-se o relacionamento dos dois, com ele visitando-a frequentemente, e passando o dia falando e falando, enquanto ela apenas escuta e o olha. Ele decide pedi-la em casamento, enquanto seu amigo tenta dissuadi-lo, pois algo não parece certo com a moça, e esse amor irá prejudicá-lo, mas Natanael não dá ouvidos, e quando, determinado, ele se encaminha para propô-la, encontra uma briga entre o que seria seu futuro sogro e Coppola, o vendedor de barômetros. Os dois puxam o corpo de Olímpia, como se ela fosse algo e não alguém, brigando por sua posse, e o jovem descobre que a moça realmente tratava-se de algo irreal (que não vou contar o que é), enlouquecendo-o completamente. Impedido de matar seu professor, de ódio por ter sido enganado, Natanael entra em um estado de insanidade, que só se suaviza quando volta para casa, e sendo cuidado pelos seus, ele recobra a consciência e seu amor por Clara. Com o tempo, a sensação de resolução e calmaria os envolve, mas, quando em um passeio, o jovem utiliza de sua antiga luneta, vendida por Coppola, a loucura o consome novamente, no lugar menos oportuno possível. Uma situação aterrorizante acontece, arriscando a vida daqueles ao redor, enquanto Coppelius, o advogado, assiste da multidão, a realização da sina que ele profetizou, e se vai, sem mais nem menos. 


Eu não posso te contar certas revelações do conto, caro leitor, mas elas já nos são reveladas na premissa que antecede todas as histórias. No entanto, como eu tenho a memória de um peixinho dourado, esqueci o que foi dito no resumo e me surpreendi muito ao descobrir o que Olímpia era na realidade. Uma coisa ou outra me deixou meio confusa, mas menos pelo conto ser mal escrito, porque não é, e mais por eu sentir que sou meio burra por não ter entendido. Quem sabe, talvez, você possa lê-lo e me explicar futuramente. Mas a sensação que perdura é que nada acontece por acaso, e que bem debaixo dos nossos olhos, alguma trama maléfica está se desenrolando. 


No quarto conto, nomeado “A história de Willie, o vagabundo”, de Walter Scott, publicado em 1824, temos um cenário que se passa na Irlanda do século XVII. Nosso narrador, que não se trata do personagem principal, e sim do neto dele, conta uma história que aconteceu muito antes, na juventude de seu avô. Quando o homem era apenas um gaiteiro que já havia sido ator, havia um homem na região, um nobre, que apenas a citação de seu nome fazia com que aqueles ao redor, tremessem. Não é certo sua posição, mas acredito que seria um senhor feudal. Sir Robert Redgaunlet era um homem inescrupuloso, saia por aí em caçadas ferozes, expulsava povos de suas terras, e era uma ameaça a qualquer um que ele sequer imaginasse ter insultado seu ego, além de cobrar grandes impostos de seus vassalos, para adornar seu castelo e suas festas com abundância. Também era um homem que prezava muito pela luxúria, em todos os sentidos, de suas comemorações, e por isso, mantinha certo apreço por Steenie Steenson, o talentoso gaiteiro. Com os conflitos políticos que a região passava na época, a situação não era boa para Redgaunlet e seu fiel serviçal, Dougal MacCallum, e somando-se com as proibições de fazer o que mais gostava (caçar povos) e afetado por múltiplas doenças, o nobre encontrava-se um pouco abatido, e com a crise econômica, passou a ser mais atento aos pagamentos de seus arrendamentos. Steenson não era um perdido, mas não cuidava bem de sua economia, e já estando com dois pagamentos atrasados, foi chamado ao castelo para acertar seu débito. Em período de vacas magras, foi necessário que ele pedisse emprestado para muitos, até finalmente atingir a quantia necessária. Ao levá-la, apesar de estar indo quitar a dívida, Steenson se encontrava extremamente tenso, preocupado com o temperamento instável de seu senhor. Lá, ao encontrá-lo com seu criado e acompanhado de Major Weir, o temível primata do nobre, tão assustador e imprevisível quanto o dono, o gateiro apenas sente-se aliviado após ter entregado o pagamento, mas, quando o homem pede que ele fique, enquanto lhe faz um recibo do pagamento, o plebeu se desespera. E é talvez por sorte, ou não, que quase que imediatamente, Redgaunlet começa a ter um ataque, proveniente de suas enfermidades, e durante uma cena de caos, é decretada a morte do senhor. Fugindo no meio do pandemônio, o gaiteiro some. 

Desolado com a morte de seu patrão, MacCallum passa a ser perturbado durante a noite, ouvindo incessantemente o apito de seu mestre, soando para chamá-lo, do quarto onde o cadáver esperava por seus ritos fúnebres. Uma noite, junto de outro serviçal, ele decide ir ao aposento e ver se o patrão falecido realmente o estava chamando. No entanto, ao adentrarem o mórbido cômodo, a visão de uma criatura demoníaca os sobressalta, e MacCallum cai morto, enquanto seu companheiro foge. 

Após sepultarem o velho nobre, o filho do mesmo, apesar de não querer e ser dedicado aos estudos da justiça, diferente do pai, vem para assumir seu lugar. Verificando o livro de registros do falecido, ele percebe a falta de confirmação do pagamento de Steenson, e solicita que o homem retorne para prestar contas. Ao retornar, o gateiro afirma já ter pago ao pai do jovem nobre, mas ao ser cobrado em relação ao recibo, e explicar que o senhor morreu antes de produzi-lo, o jovem acusa-o de mentir, pois além de não ter um recibo para dar, o dito como entregue, saco de moedas, não foi encontrado em lugar algum. Apavorado pela possibilidade de perder sua propriedade, Steenson sai, pedindo desesperadamente que lhe emprestem mais dinheiro, mas recebe apenas insultos em retorno. Inconsolável, e decidindo se afundar na bebida, em meio a floresta, ele encontra um estranho homem em um cavalo branco, que o questiona sobre seus infortúnios. Ao confessar-se, o homem diz que ele pode encontrar seu antigo senhor e pedir-lhe o recibo. Desconfiado, mas entorpecido pelo álcool, Steenson aceita e o acompanha. Levado pela floresta, o gateiro se vê abandonado pelo desconhecido, mas assusta-se com a visão de um castelo, igual ao de seu senhor, o que não seria possível, devido a distância que o separa do real. E mais esquisito fica, quando MacCallum abre as portas para recebê-lo. O serviçal diz que eles o esperam, e ele que não deve tocar em absolutamente nada que lhe seja oferecido. Ao adentrar, o homem conclui que só pode estar em outro mundo, ou fora da realidade, pois apenas pessoas que ele sabe já estarem mortas o rodeiam. E ao encontrar seu antigo senhor, o morto afirma que lhe dará seu recibo, mas com a condição de que ele coma e beba ou toque a gaita que lhe oferecem. Negando tudo, o gaiteiro pega seu recibo e descobre que o pagamento de sua dívida encontra-se em um lugar desconhecido. Fugindo das cobranças por sua volta,  ele retorna ao castelo verdadeiro e entrega o recibo para o novo nobre, que novamente o acusa de mentir, pois o recibo não poderia ter a data do mesmo dia, sendo que seu pai havia falecido semanas antes. Contando os acontecidos que o levaram até ali, o nobre e o gateiro se juntam para solucionar o mistério do desaparecimento do dinheiro, que culmina em uma descoberta horripilante, e um embate que termina em morte, e que, para todos os efeitos, inocenta o tão desafortunado Steenie Steenson. E ele que se resolva com a cobrança do pós-vida infernal posteriormente.


Eu particularmente não faço ideia do motivo para o título do conto ser esse, não vi nenhum Willie, ainda menos um que seja vagabundo, portanto não sei explicá-lo. Mas querendo ou não, apreciei o conto. Voltamos novamente ao folclore muito presente na Europa Ocidental, em relação a lugares que te prendem se de lá você usufruir de algo. Nesse conto, isso é espelhado como um tipo de inferno, mas em “A Grande Rainha”, o livro sobre a lenda do Rei Artur, do qual fiz a resenha duas semanas atrás, isso é mostrado como uma característica do País das Fadas. Eu, particularmente, gosto bastante do folclore dessa região, e o jeito como foi colocado no conto deu o toque fantástico certo, que receei que ele não tivesse. A resolução é no mínimo interessante e me fez pensar bastante na solução apresentada no conto “Os assassinatos da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, que apresenta seu ótimo personagem, Auguste Dupin, o detetive. 


Acho também interessante como, apesar de muito famosos, eu nunca ter ouvido falar dos autores desses contos, e o fato de Italo Calvino ter-os reunido, fez-me passar a conhecê-los, portanto sou grata, pelo relativo aumento de meu repertório, e espero que de agora em diante eu possa reconhecê-los em outras obras e assim sempre adquirir mais conhecimento literário.


Espero que tenha gostado da resenha de hoje, caro leitor, e se o fez, peço que deixe sua curtida, um comentário e que se inscreva em minha correpondência, assim você será alertado sempre que eu fizer um novo post. Toda interação me incentiva muito a continuar esse trabalho que tanto amo fazer. 


Adeus, Querido leitor. 


Com amor, Ana J. Carvalho.


 
 
 

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