
O amor na rivalidade em Divinos Rivais, de Rebecca Ross.
- Ana Julia Carvalho
- 5 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.
Recentemente eu tive o prazer de ler a duologia (uma história dividida em duas partes), de Divinos Rivais, da autora Rebecca Ross, publicada em 2023. Esse é o primeiro livro (com nome homônimo ao da duologia), sendo seguido por Promessas Cruéis, de 2024, que finaliza a história. Trata-se de uma alta romantasia, que para quem não é cronicamente on-line e ou inserido no BookTok, é um romance + alta fantasia, que é um subgênero da fantasia onde se tem um mundo totalmente criado, e não a terra como a conhecemos. O livro tem 464 páginas e apresenta uma linguagem descomplicada e agradável de se ler. Pude finalizar a leitura em 3 dias, sem problema nenhum. Contei com uma linda edição em português da editora Alt, publicada em 2024, onde temos um box com os dois livros juntos, com capa dura e uma deslumbrante pintura trilateral. Gostei da diagramação, principalmente do tamanho da fonte, em detrimento de alguns livros que são impressos com fontes muito miúdas e que me dão dor de cabeça. Fui presenteada com essa edição por uma querida professora minha, da faculdade, devido a minha vitória em um pequeno concurso de contos, e depois de tantos meses lendo outros livros que se encontravam na frente, finalmente pude realizar a leitura nesse fim de ano. Mas, deixemos de falar sobre outras coisas e vamos para a história.
A história é contada de uma maneira bem interessante, em um misto entre primeira e terceira pessoa. O narrador, a princípio, é observador, mas enquanto ele segue os dois personagens principais, separadamente, é incorporado à narrativa os pensamentos pessoais do personagem em questão, além de ele (o narrador) só saber os sentimentos e questões internas daquele que ele segue no momento. O tempo, de acordo com as invenções, seria algo como o começo do século XX. Então, temos nossa primeira protagonista, a principal, eu diria (*risos), a aspirante a colunista, Iris E. Winnow, que trabalha na Gazeta de Oath, na cidade homônima. Já de cara somos apresentados a seu cargo de algo como uma estagiária, que cuida dos classificados, obituários e questões menores do jornal, enquanto concorre ao tão sonhado cargo de colunista, contra seu arqui-inimigo Roman C. Kitt, um herdeiro que está sempre muito alinhado, em contraste com a bagunça derivada da pobreza de Iris. Apesar de odiar o fato de sempre achá-lo tão bonito e ter que admitir que sua escrita é excelente, Iris mal consegue esperar o momento em que irá massacrar Kitt (como ela o chama) na competição que estão travando.
Em contraponto a este momento atual, somos introduzidos ao plano de fundo, a guerra entre Dacre e Enva, os deuses. Antes, nesta terra, havia centenas de deuses, membros de duas famílias rivais. Os Celestes, os deuses de cima, e os Inferiores, os deuses de baixo. Depois de eliminarem uns aos outros, apenas cinco deuses sobraram, e os humanos decidiram que pelo bem de suas existências, na tentativa de fugir das fervorosas batalhas dos deuses, eles precisavam ser colocados para dormir, onde não poderiam oferecer riscos a mais ninguém e poderiam continuar nutrindo a magia da terra. E assim foi feito. No entanto, séculos depois, um dos deuses restantes, Dacre Inferior, finalmente acordou, automaticamente declarando guerra a Enva celeste, e por isso, o mundo se encontrava em uma batalha que já acontecia há mais de meio ano, sem previsão de término.
Apesar dos habitantes de Oath não acreditarem que a guerra chegaria até eles, Iris foi profundamente afetada, pois sete meses antes, seu irmão ouviu a canção de Enva, e no mesmo dia se alistou no exército para lutar pela deusa, deixando Iris e sua mãe sozinhas. Para se consolar da falta do irmão e do declínio da mãe, que virou alcoólatra devido à partida do filho, Iris escrevia cartas para seu irmão, Forest, por meio da máquina de escrever que herdara de sua avó. Ela os colocava dentro de seu guarda-roupa e por algum motivo, as cartas sumiam, dando à ela a sensação de que realmente estavam sendo entregues a seu irmão. Apesar da pobreza extrema, derivada da necessidade de sustento do vício de sua mãe, Iris conseguia segurar bravamente as pontas de sua vida, esperando que o amanhã sempre fosse melhor. Mas um dia, contra todas as suas expectativas, um bilhete cai do armário, com uma mensagem que a baqueia. “Não sou Forest”, dizia o estranho, para desespero de Iris. E apesar da sensação de desconforto inicial, ao constatar que aquele estranho teve acesso a tudo de mais íntimo que Iris revelou para seu irmão, ela logo se vê reconfortada, de pelo menos ter um amigo com quem partilhar seus pesares.
Passamos para nosso segundo protagonista, Roman C. Kitt. Um jovem de dezenove anos que sonhava em se tornar escritor, mas foi impedido pelo pai de entrar na faculdade de literatura, sendo obrigado a tentar a vaga de colunista, pois poderia trazer prestígio à família, que apesar de possuir muito dinheiro, não possuía status, por serem novos ricos. Roman se vê nessa competição com Iris, por quem ele finge demonstrar apatia, mas por quem, na verdade, nutre certa obsessão, já que a acha linda e absolutamente talentosa, com uma escrita capaz de transportar as pessoas por seus sentimentos. Ele também é, apesar de não entender o porquê, o correspondente misterioso de Iris, reconhecendo quem ela era desde o começo, e mantendo isso em segredo da mesma.
Subitamente, uma tragédia acontece na vida de Iris, e ela percebe que não há nada que a prende àquela vida decepcionante em Oath. Em um átimo de coragem, determinada a encontrar seu irmão, ela se demite, faz as malas, e se candidata a vaga de correspondente de guerra, na Tribuna Inkridden, o segundo maior jornal de Oath, que diferente do primeiro, não pretende esconder a natureza do conflito, e sim evidenciá-lo, para manter o público ciente da realidade que os cerca.
Direcionando-se para Avalon Bluff, uma vila a centenas de quilômetros de Oath, perto da linha de frente, e acompanhada de Attie, outra correspondente de guerra do jornal, Iris se instala na pensão de Marisol, onde com o tempo, encara não apenas os efeitos da proximidade do conflito armado, mas também o perigo oferecido pelas criaturas sobrenaturais e mortais que agem a comando de Dacre. Ainda se comunicando magicamente com Carver (o nome que Roman usou para esconder sua identidade), Iris tem seus sentimentos por seu correspondente secreto abalados com a súbita chegada de Roman C. Kitt, também como correspondente de guerra da Tribuna, em Avalon Bluff. Vemos lentamente como as pequenas coisas vão se transformando em algo a mais, e a rivalidade vai dando lugar a um sentimento irrefreável, potencializado pela dureza do momento. Iris se divide entre seus novos sentimentos por Roman e pela paixão que sente por Carver, mas o destino decide pela moça, após uma tragédia que acontece com ela e Roman, quando ambos são mandados para a linha de frente, para documentar. Traumatizada pelo que viu e passou, e sobressaltada com o estado de saúde de Roman, Iris novamente descobre algo que a desestabiliza completamente, mas que, finalmente, resulta em sua junção com seu antigo rival. Mas em tempos de guerra, tudo que é bom dura pouco, e tão rápida quanto veio, a felicidade de Iris se acaba. Um ataque é feito à cidade, o conflito finalmente os alcançou, e não conseguindo fugir a tempo, eles são separados. Tendo que lidar com a rachadura em seu coração por ter perdido Roman, com a possibilidade de ele estar morto, Iris descobre um outro alguém agindo na história, que novamente faz tudo que ela sabia, todas as suas concepções, ruírem.
E assim chegamos ao fim do primeiro livro da duologia Divinos Rivais. Por mais que eu esteja me coçando para, não quis revelar demais, e contar spoilers, pois, se eu o fizer, como você vai querer ler? Eu tenho que me segurar, já que pretendo incentivar a leitura dos livros que estou falando sobre, e não desestimulá-la. Mas que fique claro que, na minha opinião, e não que ela importe (mas já que você está lendo isso, deve estar procurando a opinião de alguém), julgo que essa foi uma ótima leitura. Não sei dar nota aos livros, pois não tenho um método de avaliação pré-concebido, mas sei que gostei demais de viver essa história. Em nenhum momento me senti entediada, ou desejando o fim da obra, e parti diretamente para ler a sequência, na esperança de saciar minhas expectativas e ver como tudo terminaria. Pude sentir as tantas dificuldades enfrentadas por Iris, as batalhas internas travadas por Roman, e o fervor do amor que floresceu entre os dois, em detrimento ao trágico e ao horror. Vi novamente um pouco da realidade massacrante da guerra, do pandemônio que ela causa, mas também vi o poder da amizade, a força da empatia, e como a felicidade pode nascer até dos momentos desesperançosos.
Espero que assim como eu, vocês possam desfrutar da leitura dessa obra fantástica, e que acompanhem o que direi sobre sua continuação na semana que vem. Fiquem todos em segurança e nunca parem de ler.
Adeus, Querido leitor.
Com amor, Ana J. Carvalho.




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