O que esperar daqueles que tiveram passados ruins, em As Crianças Daquele Verão, de Dot Hutchison

É muito pretensioso quando tentamos julgar por meio da moral o que pessoas que passaram pelos diversos tipos de dificuldades existentes durante a infância irão fazer em seus futuros, não acha, caro leitor? Pois, é muito fácil dizer que o trauma não deve definir e que não é porque alguém passou por coisas ruins, que essa pessoa tem aval para se tornar uma pessoa ruim ou um criminoso quando crescer, quando não fomos nós que sofremos algo. Nesta obra, publicada pela escritora Dot Hutchison em 2018, vemos os dois caminhos que as vítimas podem seguir.
“As Crianças Daquele Verão” é o terceiro livro da série “O Colecionador”, precedido pelos best-sellers “O Jardim das Borboletas” e “Rosas de Maio”, sendo o primeiro meu livro favorito, diga-se de passagem. E é sucedido pela obra “The Vanishing Season”, que finaliza a série e que ainda não foi traduzida para o potuguês.
Nesta obra, que se passa na região de Quântico, a sede do FBI, na Virginia, nos Estados Unidos, conhecemos a agente do Setor de Crimes Contra Menores do FBI, Mercedes Ramirez. Ao longo da história, entendemos melhor porque ela trabalha nesse setor, tendo ela mesma sido vítima do abuso constante e da negligência familiar, durante muitos anos de sua infância, gerando uma vontade inabalável de salvar outras crianças do mesmo destino cruel. E é com esse furor heróico que ela se espanta ao descobrir, quando voltava de um encontro com sua namorada, um menininho ensanguentado esperando na varanda de sua casa. Ele segurava um urso de pelúcia (algo que os agentes costumam dar para crianças resgatadas) com asas e uma auréola, e o nome de Mercedes. Chamando toda a polícia e seus amigos do FBI, Mercedes interroga o menino, que diz que seus pais foram mortos por um anjo e que ela o trouxe até lá, deu o nome da agente e disse que ele estaria seguro com ela. Chocados com a ocorrência, ela apenas se confirma ao verificarem a casa dos Wilkins, no endereço dado pela criança. Lá, encontram o casal assassinado a tiros e facadas, e um lugar totalmente limpo, onde o, ou a, assassina colocou o menino e o fez assistir a morte de seus pais, para que “visse que estava sendo salvo”. Ao investigarem no serviço social, descobriram o histórico da família, onde o pai claramente espancava o filho, mas sempre que a justiça levava a criança embora, os pais conseguiam sua guarda de volta, e ele voltava para aquele lar abusivo. Assim todos chegam à mesma conclusão. A assassina, pois parece ser uma mulher, por trás da máscara que usa, matou os Wilkins para proteger o filho, Ronnie, do abuso. E a partir dali, uma grande série de assassinatos com pouquíssimos dias entre um e outro se sucede. Dias depois do primeiro menino, um trio de irmãos aparece na varanda de Mercedes, alegando as mesmas coisas, e a polícia descobre que o pai da família abusava sexualmente da mais velha das filhas. E a situação desanda. O FBI não pode investigar oficialmente, pois além de ainda não fazer parte da jurisdição deles, Mercedes está diretamente envolvida com o caso, e portanto, não pode atuar nele, coisa que a frustra imensamente. À ela só resta esperar a próxima criança aparecer lhe procurando, e pesquisar entre seus casos antigos atrás de alguém suspeito e que possa ter se tornado um assassino, e que confiasse nela. Em questão de uma semana, aparece uma nova criança, cinco dias e a próxima, três dias e mais três irmãos, e assim por diante. O ritmo veloz que a criminosa segue os preocupa muito, pois assassinos em série costumam atuar em espaços de meses, semanas ou até anos, e essa matou mais em poucos dias do que muitos outros criminosos executaram em toda a sua vida. Mas, sendo muito boa em cobrir seus rastros, apesar de ter contato direto com os sobreviventes, a polícia se vê com muito pouco para seguir. E a situação se agrava mais, quando a criminosa aparenta estar entrando mais ainda em um declínio mental, pois um menino, vítima de suas tentativas desesperadas de salvamento, acaba tendo sua atenciosa e amorosa mãe assassinada, apenas por um engano. Dominada pela paranóia, ela ataca a nova família de uma das suas vítimas, que já se encontrava em um bom lar, e sequestra outra menininha de uma família inocente. E começa uma corrida contra o tempo que culmina em um dramático fim, que faz Mercedes questionar o quão bem ela realmente faz para as crianças, ou se sua presença na vida delas pode mais atrapalhá-las.
Apesar de não ter desgostado do livro, sinto que ele fica muito na sombra dos anteriores da série, que apresentam qualidade e originalidade muito maiores. Tanto que já li os outros dois várias vezes, mas este li a terceira vez apenas porque precisava usá-lo para meu TCC e, diferentemente dos outros, eu lembrava muito pouco da história, pois ela não é muito marcante. Mas acho o caso bem interessante, uma pena que vemos pouco dele já que, por estar diretamente envolvida, Mercedes não possa realmente investigá-lo. Também acho muito instigante o fato de termos, por meio de pequenos fragmentos do passado, como um diário meio poético, os acontecimentos e abusos pelos quais a assassina passou durante sua miserável infância. Mas fico um pouco decepcionada por não ter mais do que o período de quando ela era criança. Acho que a autora perdeu a oportunidade de explorar toda essa questão do declínio mental que ela teve e que a levaram a cometer seus crimes. Mas acima de tudo, acho essencial a questão que o livro levanta sobre o que aguarda os sobreviventes. Pois, após sofrer tantos traumas em um momento tão vulnerável como a infância, muito se pode afetar no futuro. Temos Mercedes, que apesar de ter passado pelo que passou, se reergueu e se tornou uma reverenciada agente do FBI, mas também temos a assassina, que criou toda uma vida estável, mas carregada de pontos fracos e segredos dos quais ela tentou fugir, e que um dia, provocada por um gatilho, despertou nela algo muito mais profundo e obscuro que a fez voltar para toda aquela tortura que lhe foi imposta, e criar um furor assassino, vingativo e protetor que ultrapassava a justiça e o correto. Vemos também o quanto é comum os sobreviventes acabarem cometendo suicídio, tornando-se dependentes alcoolicos ou químicos, tornando-se criminosos, agressores ou abusadores, coisas que foram feitas à eles, e que jamais seriam esquecidas.
Há algumas subtramas, como o drama de Sterling, a amiga e colega de trabalho de Mercedes, que ainda sofre pelo desmanche de seu noivado, ou o contato constante e a visita das protagonistas dos livros anteriores, que foram “adotadas” pelos agentes do FBI após tudo que sofreram. Eu acho essa questão de trazer as personagens anteriores um pouco forçado demais, e só tem algum valor para quem já leu os livros anteriores, pois se não tiver lido, não gera nenhum apego ou interesse por algo que é pouco introduzido. Isso é algo que eu vejo como um ponto negativo, pois, para mim, boas sequências não são totalmente dependentes, e devem ter sentido próprio para que o leitor a compreenda mesmo sem ter consumido sua história pregressa.
Mas enfim, se procura um suspense policial confortável para ler, acredito que esse possa ser um bom exemplo. Mas se procura coisa melhor, leia os primeiros livros da série. Eles, sim, são romances de alto escalão.
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Adeus, querido leitor.
Com amor, A. J. Carvalho.



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