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Os dois primeiros de Contos fantásticos do século XIX, escolhidos por Italo Calvino

  • Foto do escritor: Ana Julia Carvalho
    Ana Julia Carvalho
  • 11 de mar.
  • 7 min de leitura

Particularmente, não aprecio muito as coletâneas de contos, caro leitor, pois prefiro o gênero romance, e não o de narrativas curtas. No entanto, devido aos acontecimentos que irão se seguir, no caso, o início do meu estágio desse semestre, entre outros projetos da faculdade, vou estar bastante ocupada por um tempo, e por isso estou optando por pegar essa coletânea e fazer resenhas de dois em dois contos, pois são rápidos de ler e produzir a resenha sobre, e assim poderei poupar certo tempo, sem deixá-lo órfão do mundo literário.  


O livro em questão me foi dado por uma querida professora que pretende me ajudar com o tema do meu projeto de mestrado, e por isso pensei em lê-lo posteriormente, entretanto, no momento, sua estrutura me veio a calhar. 

Publicado em 2004, pela Companhia das Letras, a coletânea foi formada pelo escritor italiano Italo Calvino, para uma série de televisão italiana, em 1983. Entre histórias de mistério, terror e suspense, os autores remontam aos nomes mais relevantes do século XIX, no gênero, quando este tipo de narrativa estava mais em alta do que hoje em dia, eu diria. Assim costuma ser com as “novidades”. 


O livro é dividido em duas partes, sendo elas “O fantástico visionário” e “O fantástico cotidiano”, que não são explicadas e pretendo entender a diferença ao final da obra. Uma coisa interessante presente nesta obra, é que antes de cada conto, recebemos uma pequena explicação sobre a história e seu contexto.  


O primeiro conto chama-se “História do demoníaco Pacheco”, escrito por Jan Potocki, em 1805. No entanto, diferente dos outros contos do livro, que realmente o são, esse primeiro, pelo que entendi, não se trata de um conto em si, e sim, um excerto retirado de uma história maior escrita pelo autor.  

Na história, que se passa na Espanha, nosso personagem principal, Alphonse van Worden, um oficial da armada napoleônica, chega a Los Hermanos, onde encontra um patíbulo com dois enforcados. Querendo saber mais sobre, ele conhece duas belas irmãs árabes, que explicam para ele que se tratam dos irmãos Zoto, grandes bandidos locais. Relevando isso, e desenvolvendo uma situação de extremo erotismo, ele passa uma noite de amor com as duas. Esses acontecimentos se sucedem no período posterior ao início do conto, e quando este começa, Alphonse está despertando após a agradável noite que desfrutou. Contudo, seu sono foi perturbado por visões horrendas e assustadoras, que o deixaram com uma sensação ruim. E ao acordar por definitivo, ele se horroriza ao perceber que ao invés de estar em um leito entre as duas amantes, está no patíbulo, nu, entrelaçado  aos dois cadáveres enforcados, em meio à pedaços podres de carne em decomposição e abutres. Passando certas dificuldades para sair de lá, ele se veste e começa seu caminho de volta para de onde veio. Encontra seu cavalo na segunda estrebaria que ficou, e muito depois de passar da primeira, à noite já dominou o horizonte. Receoso com o anoitecer no relento, Alphonse vê uma pequena construção, junto de uma capela. Ao bater, ele encontra um ermitão, que o acolhe, dando o que comer e um lugar para dormir. Todavia, enquanto ainda conversava com o homem, a porta se abre e uma criatura demoníaca e castigada entra, arrastando-se. Enquanto o protagonista aterroriza-se, o ermitão explica-lhe que o homem chama-se Pacheco e que trata-se de um exorcizado que ele acolhe e abençoa contra os males do alvorecer. E então pede-lhe que conte sua história, e aos balbucios e gemidos, o amaldiçoado conta o motivo de seu tamanho infortúnio. O relato fala de sua vida, do casamento de seu pai com uma jovem mulher, que trouxe a irmã junto. Do amor dele pela irmã de sua madrasta, e do amor da madrasta por ele. Conta da viagem que eles fizeram para a região, e da proposta da madrasta para que ele se deitasse com as duas, e de seu despertar no patíbulo com os enforcados, e que coisas horrendas o perseguiram e fizeram aquilo com ele. E ao ouvi-lo, o protagonista percebe que se não tomar a atitude certa, poderá ter um fim semelhante ao do homem demoníaco, e por isso, é melhor não deixar que nada entre, pois aquilo que é belo de dia, pode não continuar assim à noite. 


É claro que não vou te entregar tudo, caro leitor. O fator “assustador” do conto vem justamente de suas revelações, e será necessário que você leia para descobrir como a ingenuidade e o desejo às vezes podem ser o nosso fim.  


O segundo conto, intitulado “Sortilégio de outono”, de Joseph Von Eichendorff, publicado em 1808,  foi sua primeira novela, escrita quando o mesmo tinha apenas vinte anos, e foi inspirada na lenda medieval de Tannhäuser. 


Quando Ubaldo, um cavaleiro, sai para caçar com seus colegas, e se separa deles, fazendo com que se perca no meio da floresta, é com alívio que ele vê, quando encontra uma caverna que abriga um eremita. O homem, parecendo um fantasma de um nobre, com roupas correspondentes, mas em estado de desgaste, e com uma palidez quase sobrenatural, o acolhe e conforta, afirmando que irá direcioná-lo para o caminho certo no dia seguinte. 

No meio da noite, quando acorda repentinamente, Ubaldo vê o homem fazendo um tipo de prece fervorosa, pedindo redenção à Deus, por algum pecado que parecia quase imperdoável. Mas como o estranho se mantinha misterioso em relação a tudo que o envolvia, o cavaleiro não descobre nada, todavia, ao ser guiado para casa, conclui que gostou do homem. Nos dias que se seguem, Ubaldo volta à caverna para conversar com o homem solitário, e com o tempo, eles conversam mais e mais, aproximando-se. Um dia, ele pede para que o homem finalmente conte sua história, e após relutar muito, o mesmo aceita e o acompanha até seu forte. Lá, ele conhece a esposa e os filhos de Ubaldo, e espanta-se com algo misterioso. Após passar um momento taciturno, ele começa a narrar seus infortúnios. Há alguns anos, ele e seus companheiros íam para a missão cristã, na terra prometida, mas, diferente dos outros, ele decide ficar, e uma despedida é feita para os homens que vão e seu melhor amigo, entre eles. Na época, ele se apaixonara por uma donzela que vira nos arredores de seu forte, e devido à sua presença na despedida, ele finalmente pôde declarar seu amor por ela, que subiu em seu cavalo, e se retirou, assustada. Com o término da comemoração, já se isolando, o antigo cavaleiro ouve uma música sendo entoada do meio da floresta. Seguindo-a, ele encontra um forte, e em meio aos músicos, vê sua amada. Surpreendentemente, a bela mulher corresponde seus sentimentos, mas conta que o melhor amigo do homem mentiu para ele, e que na verdade ele não iria para a missão, e sim ficaria para obrigá-la a se casar com ele, e que se o cavaleiro quisesse viver seu romance com ela, deveria assassinar seu melhor amigo. Perturbado, o homem entra em reflexão profunda, e quando vê, aleatoriamente, seu melhor amigo, em frente a um penhasco, acaba se aproveitando da oportunidade, jogando-o para a morte. Com o pesar daquele assassinato, ele volta para o forte, onde é recebido pela amada, e consolado, esquecendo-se da culpa e entregando-se à uma vida com ela. Mas, com o passar das estações, ele vê sua mulher murchar, tal qual as cores ao redor e o ambiente que o rodeia. Até que um dia, parecendo que toda a vida foi sugada de seu corpo, a mulher não acorda mais, e aterrorizado, imaginando que o caçariam, ele foge. E ao afastar-se do forte, ele se depara com uma estação completamente diferente, e após um momento de confusão, descobre que esteve em um lugar diferente, paralelo, onde o tempo passava muito devagar em relação ao do mundo real. Seria tudo aquilo uma ilusão? E assim, ele se isola, na tentativa de expiar seus pecados. 

Ubaldo faz uma revelação para o antigo cavaleiro, que foge espantado, embrenhando-se novamente na floresta, seguindo a canção que não ouvia há anos e perdendo-se no lugar que esteve antes, tendo um destino temível. 


Novamente, sei que é muito vago, mas eu destruiria o conceito de suspense se te desse a história de bandeja. E o suspense, diferente de outros gêneros, para mim, contém uma das narrativas mais comoventes que existem. Mas não comovente de deixar-nos triste, claro, e sim pelo fato de causar-nos sensações diversas, imergindo-nos no enredo, de maneira a nos deixar ansiosos, assustados, alertas, desconfiados, e com uma cadeia de outros sentimentos. 


Há também uma questão sobre a qual não comentei, de que os contos foram escolhidos por Italo Calvino, propositalmente, devido aos componentes que se repetem entre eles, interligando-os com uma mesma temática. 

Nestes dois contos, os pontos mais evidentes, claramente, são a existência do sobrenatural, da ideia do ermitão, e do conceito da criatura maléfica que se manifesta como a imagem da mulher sedutora que vem para corromper e fazer malefícios com o homem de bem. Afinal, na época, o conceito da mulher ainda era muito pior do que é hoje, e o de hoje já é ruim. Era normal pensar que o ser feminino poderia ter apenas duas faces, a de completa vulnerabilidade frágil, ou a da maldade pecaminosa, geralmente associada à figura bíblica do pecado original. 


Enfim, não vou me delongar muito, caro leitor, você já deve estar entediado dessas histórias antigas. Mas saiba que eu gostaria muito se você tivesse interesse em pesquisar o assunto e ler mais sobre contos de suspense, principalmente os de grandes autores. Caso queira uma recomendação, eu sugiro que procure os contos do mestre Edgar Allan Poe, ou uma outra coletânea que já li, chamada “O horror bate à porta: contos macabros”, da editora Martin Claret. 


E com essa sugestão, eu encerro nossa resenha de hoje. Espero que tenha gostado. Deixe sua curtida e um comentário, compartilhe com outros que possuem o interesse na leitura, isso me incentiva muito a continuar o trabalho semanalmente. 


Adeus, Querido leitor. 


Com amor, Ana J. Carvalho.


 
 
 

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